Rui Vaz
by on 11 November, 2021
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“Quanto mais se conhece mais se ama.”

LEONARDO DA VINCI

As relações entre as pessoas assumem, hoje como sempre, uma enorme importância no nosso equilíbrio e, inclusive, na nossa realização como seres humanos. De facto, diz-se mesmo que o homem é um “animal de relações”. É óbvio que, ao utilizar a expressão “relações humanas”, não me estou a referir àquilo que as ciências sociais consideram como a “criação de um clima favorável à marcha das empresas, para garantir, por uma integração real de todo o conjunto do pessoal, uma colaboração confiante e frutuosa”, ou seja, a moderna organização científica do trabalho, sob bases psicológicas favoráveis.

Pretendo aqui falar unicamente daquele relacionamento que qualquer pessoa normal estabelece com os seus familiares, amigos, conhecidos, colegas de trabalho e assim por diante. Relações concretas e humanas, com pessoas reais de carne e osso. Certo é que, no actual panorama “cibernético”, podemos criar laços com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, mesmo sem nunca a termos visto e talvez jamais esperando sequer encontrá-la frente a frente. O mesmo, aliás, sucede com as amizades por correspondência, os “pen pal”, que também se correspondem virtualmente, sem (quase) nunca se encontrarem. É provável que também a estes casos se possam aplicar os presentes considerandos, mas de facto refiro-me mais concretamente às relações entre homens e mulheres que se conhecem neste plano físico de existência. Senão, teríamos também de considerar as relações no plano puramente espiritual – e refiro-me aqui literalmente à ausência de corpo físico – e isso é um campo que desconheço por completo.

É um lugar comum dizer-se que não existimos sozinhos no universo. “Ser é relacionar-se”. De facto, é só mesmo através da nossa relação – quer com pessoas, ou com lugares ou acontecimentos – que podemos existir como seres individuais no universo. E as relações humanas são eminentemente construtivas, pois é através delas que podemos “construir” o Ser sublime que na verdade somos, ainda que o desconheçamos. Quantas vezes não sentimos que o simples facto de conhecermos alguém desperta em nós uma ânsia de melhorar, de realizamos o potencial que, bem no fundo, sabemos que possuímos? Talvez uma tal experiência seja mais comum no estado que designamos por “paixão” – no seu significado mais lato –, mas qualquer pessoa que desperte a nossa afeição tem a capacidade intrínseca de fazer de nós um ser humano melhor. E vice-versa, é evidente. É assim que podemos dizer: “É muito melhor amar que ser amado, e o contrário também é verdade”.

Será, contudo, que já alguma vez nos interrogámos verdadeiramente acerca da finalidade das relações humanas? Ou seja, afinal por que motivo é que nos relacionamos uns com os outros? Existe qualquer motivação consciente que nos leve a buscar determinadas companhias, ou estas simplesmente acontecem por mera casualidade? Temos alguma compreensão do motivo pelo qual nos relacionamos com a, b ou c, ou não prestamos sequer atenção a isso?

Ora, há uma verdade muito básica, cuja compreensão é fulcral, se alguma vez aspiramos a ter sucesso nas relações com os outros. Esta simples verdade está enunciada com clareza nesta proposição de Neale Walsch: “A maioria das pessoas relacionam-se tendo em vista aquilo que podem obter da relação, em vez daquilo que podem pôr nela. O propósito da relação é decidir que parte de nós gostaríamos de mostrar, não que parte do outro podemos conquistar.”

De facto, a maneira de ser feliz nas relações é utilizá-las para o fim com que foram criadas e não para aquele intuito que, muitas vezes, erradamente lhes destinamos. Infelizmente, e os resultados estão à vista, a grande maioria das pessoas continua a relacionar-se mais por aquilo que podem retirar da relação do que pelo contributo com que a vão consolidar e enriquecer. Ou, ainda na palavras de Neale Walsch: “Contudo, o propósito da relação não é ter outra pessoa que possa completar-te, mas sim com a qual possas partilhar a tua plenitude”. Bem, uma afirmação talvez não muito compatível com a ideia romântica da alma gémea, mas em perfeita consonância com aquilo que eu próprio já aqui escrevi: “Amar é aceitar em pleno. E só quando estamos centrados em nós próprios e permanecemos nessa inabalável fortaleza interior podemos amar melhor, pois experimentamos a paz de onde brota a alegria e o contentamento.” (in “Mais Amor”).

E é este o abc das relações. Sem compreendermos e sentirmos intimamente a verdade de uma tal afirmação “continuaremos a vaguear perdidos pelos museus de todos os corações que a vida colocar ao nosso alcance”. É talvez por isso que tantas pessoas procuram na companhia dos seus animais de estimação o íntimo conforto e segurança que não conseguem obter nas suas relações falhadas. De facto, os animais têm essa capacidade inata de responder muito mais naturalmente aos nossos estados de espírito e, nessa medida, podem ser uma melhor companhia do que os seres humanos. Mas o papel das relações que estabelecemos com as pessoas é exprimirmos aquilo que realmente somos. O que por sua vez significa que, se não estamos seguros da nossa verdadeira identidade, sentiremos dificuldades acrescidas no relacionamento com os outros. Infelizmente, a maioria das pessoas procura conseguir algum proveito de uma relação, em vez de doar gratuitamente algo de si. E, contudo, só podemos enriquecer uma relação se lhe dermos um pouco da nossa riqueza interior. Não pode haver relação bem sucedida sem liberdade, total liberdade, porque o verdadeiro amor é inteiramente livre. O Amor autêntico nunca prende, mas liberta.


Rui Vaz da Fonseca, in “Correio da Feira” – 02-06-2000
 

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Fernanda Paz
Ser é relacionar-se. Gratidão pela partilha e pela sintonia profunda com esta plataforma Rui. PAZ
11 November, 2021