Rui Vaz
by on 23 November, 2021
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“Todas as relações são sagradas.”

NEALE WALSCH

O relacionamento pessoal não é, por certo, uma tarefa fácil, mas se desistirmos de amar, só porque nunca conseguimos essa plenitude total que o nosso coração anseia, jamais poderemos experimentar a alegria da vitória, a principal vitória, aquela sobre nós próprios. Na vida de todos os dias, deparamo-nos com inúmeros fracassos e situações negativas. Mas é a nossa própria natureza que nos impele a prosseguir e ultrapassá-las. Se deixássemos de comer só porque uma refeição nos caiu mal e fez ficar doentes, em breve definharíamos e cessaríamos de existir. Viver é relacionar-se e, a menos que nos isolemos completamente, não podemos fugir disso.

O Amor é constantemente o presente – o aqui e agora –, e é esta a consciência máxima que estar vivo representa. Não há certeza nenhuma do amanhã, o amor, a ternura, o bem que sentimos por alguém devem ser continuamente manifestados a cada momento. O coração abre-se, de uma forma intuitiva e imediata, junto daqueles que nos fazem sentir espontaneamente bem. Nessas alturas, sentimo-nos felizes e gratos por conhecer o outro e, mais ainda, por nos reconhecermos nele. Com ele desejamos experimentar tudo o que é bom, tudo o que é luz, tudo o que nos exalta e delicia, porque nada mais há a partilhar. Quem quer amargura, ressentimento ou infelicidade e dor numa relação? Ninguém. Alegria, paz, contentamento interior e felicidade serena ou mesmo exaltada, isso sim, agrada a todos.

Mas para que este quadro idílico possa efectivamente ser vivido, e não apenas sonhado, o nosso mais alto ideal, o sonho que nos acalenta a existência não pode de modo algum estar centrado no outro – erro fatal! – mas sempre em nós próprios. Talvez para muitas pessoas isto seja uma revelação surpreendente, habituadas que estão a pôr o interesse do outro acima do seu próprio interesse. Recordam-se da Regra de Ouro? “Faz aos outros aquilo que desejas que te façam a ti próprio”. Ou a súmula de todos os mandamentos: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.

Tu próprio, tu mesmo: será que nos esquecemos destas duas palavrinhas essenciais para tudo compreender, para tudo viver? Eu e o outro, lado a lado, não em nenhuma relação de amo e senhor, ou de cavaleiro e sua dama, muito bela romanticamente, muito irreal praticamente. Não é o outro que deve corresponder aos teus ideais, nem tu que deves corresponder aos seus ideais. É, sim, cada um que deve satisfazer os seus próprios ideais. Só assim, satisfeito o coração de cada qual, se podem mutuamente honrar e amar os corações de ambos.

Deste modo, devemos sempre encarar qualquer relação com outra pessoa como uma oportunidade ímpar de podermos experimentar o nosso próprio ideal mais elevado, ou seja, a ideia mais sublime que fazemos, ou queremos projectar, de nós próprios. Daí, ser natural esse intenso desejo de melhorar por amor ao outro, para lhe apresentarmos a melhor e mais pura faceta do nosso ser verdadeiro. Assim, e paradoxalmente, se chega à conclusão que o melhor, numa relação, é que “cada um se preocupe não com o outro, mas só com o Eu” (Neale Walsch). O Eu Real e Divino, é claro, não o pequeno eu mesquinho e egoísta que tantas vezes se exibe em toda a sua vanidade, tão superficial é o conhecimento que temos de nós mesmos.

Quando deveras compreendemos isto, experimentamos então que uma das consequências mais benéficas do relacionamento com alguém é o facto da nossa parte melhor vir à superfície e tudo fazemos para dar ao outro o máximo de nós. Porque só quando aprendemos a gostar de nós próprios (ponto-base muito importante!), é que começamos então verdadeiramente a amar o outro. As pessoas amadas extraem o melhor de nós e obrigam-nos a dar o nosso melhor. E como o amor é um acto espontâneo e livre, nunca podemos estar completamente certos do amor da outra pessoa, muito menos pressioná-la para que ela declare ou demonstre inequivocamente a sua afeição.

Todavia, há três qualidades básicas, sem as quais qualquer relação está desde logo votada ao fracasso. Honestidade, sinceridade, desprendimento: a Santíssima Trindade de tudo quanto fazemos neste mundo, incluindo as relações pessoais. Honestos e sinceros connosco próprios, e desapegados do “ego” que nos separa do outro. Fácil de compreender, mais difícil de fazer. Mas quando começamos a ter consciência de algo, mesmo que não consigamos logo traduzir essa consciência em acções práticas, avançamos mesmo assim no rumo certo.

Conhecer pessoas pode ser muito excitante, mas conhecer-se a si próprio é a maior proeza de que jamais seremos capazes nesta aventura da vida. A verdadeira chave é interior. Trazemos sempre connosco aquilo que procuramos, mas precisamos de ver espelhado na pessoa amada o nosso próprio amor, até nos reconhecermos nessa reflexão. O amado e o amante são espelhos simétricos e síncronos que se completam e formam um todo único. E quando um vê o outro, contempla-se a si próprio e nesse reflexo é o amado que ama e o amante que é amado. Porque só um Amor baseado na comunhão das almas pode ser eterno e infinito. E este é, por natureza, o próprio Amor divino, a derradeira e suprema relação em que, de facto, os dois são apenas Um.

NOTA: Todas as citações de Neale Walsch foram extraídas do seu livro Conversas com Deus (Livro 1), cujo capítulo 8 serviu de inspiração a estes dois artigos.

Rui Vaz da Fonseca, in “Correio da Feira” – 09-06-2000

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