Rui Vaz

O POBRE BRAHMIN
 

Era uma vez um homem muito pobre chamado Brahmin, que tinha a seu cargo a mãe, muito velha e cega, e a mulher com quem casara e que não lhe dera filhos.

Brahmin era muito devoto do deus Shiva e todos os dias ia ao templo rezar ao seu Senhor. Então, ao fim de doze anos de orações diárias, Shiva revelou-se ao seu fiel adorador e disse-lhe que realizaria qualquer desejo que ele tivesse, mas apenas um só desejo. Aconselhou-o a pensar bem no que lhe iria pedir e voltasse depois ao templo quando se tivesse decidido.

Cheio de felicidade, Brahmin correu para casa a dar a boa nova à sua família. A mãe disse-lhe:

– Meu filho, vai depressa ao templo e pede a Shiva que me restitua a visão. Assim, poderei ajudar-te e nada ficarás a dever-me.

Mas a mulher retorquiu:

– A tua mãe, além de cega, está muito velha. Para que lhe serviria agora a vista? Se pedires agora um filho, talvez ele venha a fazer fortuna e nós beneficiaremos com isso. Portanto, corre ao templo e pede a Shiva que nos concede um filho!

Então a mãe e a mulher começaram a insultar-se e a bater uma na outra, sem sequer escutarem o pobre Brahmin que tentava acalmá-las. Sentindo-se mais infeliz que nunca, saiu de casa e foi sentar-se num banco da praça pública, chorando como uma criança.

Todos os que passavam por ali tentavam consolá-lo, mas em vão. Até que um homem sábio e de coração bondoso lhe perguntou a causa do seu desgosto. O infeliz Brahmin contou-lhe como durante doze anos rezara a Shiva e finalmente o deus lhe aparecera, prometendo satisfazer-lhe apenas um desejo. Ora ele queria ver-se livre da miséria, a mulher queria ter um filho e a mãe queria recuperar a vista, mas como era três desejos diferentes não sabia qual deles suplicar a Shiva.

Depois dirigiram-se para casa de Brahmin, separaram as mulheres que ainda resmungavam uma com a outra, e o sábio disse que havia uma maneira muito simples de resolver o problema:

– Ora escutem. Há três desejos diferentes e Shiva só realizará um. Assim, Brahmin irá amanhã ao templo, rezará ao deus, e quando este aparecer dirá que para si não pretende coisa alguma, a sua mulher também nada deseja, mas a velha mãe, que é cega, tem um grande desejo, um só: poder um dia ver um neto seu a comer arroz com leite numa tigela feita de ouro e pedrarias...

E, como se tratava de um único pedido, Shiva cumpriu a sua promessa e satisfez o desejo do feliz Brahmin.

(Conto tradicional da Índia)

Last update on October 7, 2:49 pm by Rui Vaz.
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Rui Vaz
#6

SÓ DEUS É REI
 

– Viva o rei para sempre!

Eram estas as primeiras palavras que todos os homens do país haoussa deviam dizer, sem se enganar, segundo os costumes sagrados, sempre que comparecessem em presença do seu soberano.

Ora, à sombra da árvore de vasta folhagem, onde esse senhor do reino recebia todas as manhãs o seu povo, apareceu um dia um homem alto e de aspecto calmo que ousou saudá-lo com estas palavras:

– Só Deus é rei.

No mesmo instante, ergueu-se um murmúrio escandalizado entre os cortesãos de vestes levemente esvoaçadas pela brisa. O rei não se atreveu a irritar-se. Sorriu, levantou a mão para impor silêncio e pediu ao audacioso que repetisse o cumprimento, estendendo o ouvido e torcendo o nariz, como se tivesse escutado mal.

– Só Deus é rei – repetiu o homem, impassível e firme.

Então o rei sentiu-se cruelmente ferido no seu orgulho, mas não deixou que tal transparecesse. Respondeu:

– Homem, a tua insolência é de louco ou de herói. Quem és tu?

– Um camponês do teu país. Cultivo a minha terra na orla da cidade e apenas ambiciono alimentar convenientemente a minha mulher e os meus filhos, durante o tempo que me for concedido para viver.

– Mereces a minha consideração e a minha confiança – disse o monarca.

Tirou do dedo um anel de ouro cinzelado, estendeu-lho e acrescentou:

– Confio-te este sinal da minha realeza, que os meus inimigos tanto cobiçam. Guarda-o preciosamente, porque, se o perderes, deverás pagá-lo com a tua vida. Que seja assim honrado aquele que não tem outro rei senão Deus.

O homem saudou-o e voltou para casa com o anel no seu punho cerrado.

Uma semana mais tarde, o senhor do reino mandou-o chamar. Tiveram dificuldade em arranjar-lhe lugar diante do trono.

– Tenho uma missão a confiar-te – disse-lhe. – Preciso de pedreiros e artífices habilidosos para construir a nova muralha da minha cidade. Visita todas as aldeias do país, mesmo as mais distantes, e traz-me os homens de que careço.

Aquele que era agora conhecido pelo povo por Só-Deus-É-Rei voltou nesse instante para casa, escondeu num chifre de carneiro o anel real que lhe fora confiado e disse à mulher:

– Tenho de partir em viagem. Na minha ausência, toma conta deste objecto. Que te seja tão querido como a minha própria vida.

Beijou-a, apertou os filhos nos braços, depois montou no burro e partiu.

Mal saíra da cidade, o rei enviou, em segredo, um mensageiro a casa da mulher de Só-Deus-É-Rei. Esse homem, de olhar resplandecente, ofereceu à esposa receosa mil conchas pelo chifre de carneiro onde estava o anel. Com as mãos trémulas e o coração palpitante, empurrou-o. Então, abriu diante dela três cofres cheios de roupas magnificamente tingidas e tecidas a fio de ouro. Ela levou-as ao rosto, respirou o seu perfume, vestiu-as, contemplou o seu esplendor num espelho de cobre, fechou os olhos e apontou a viga da casa, em cujo vão estava escondido o cofre. O mensageiro levou-o apressadamente ao seu amo. Logo que o rei teve na sua mão o anel, deu uma gargalhada e resmungou maliciosamente:

– Façam-me um anel novo e deitem este no lago mais profundo do país.

Dois servidores partiram imediatamente a correr e fizeram o que lhes fora ordenado.

No caminho de regresso, Só-Deus-É-Rei e a sua equipa de pedreiros pararam uma noite numa aldeia de pescadores onde lhes ofereceram tantos frutos e bebidas fortes, tantos cantos e risos, que decidiram ficar por alguns dias entre essa gente de bem, antes de enfrentarem a savana rude que os separava da cidade real. No dia seguinte, acompanharam os homens à pesca, donde voltaram, ao crepúsculo, com as redes pesadas e escorrendo água.

Quando alinharam os peixes sobre o grande leito de folhas verdes no centro da praça, um ainda se mexia. Tinha um tamanho que se impunha e era cintilante como as águas de um lago sob as chamas do sol poente. Uma criança agarrou-o, pegou na faca do pai, baixou-se e abriu o ventre do animal, como via os outros fazerem. Então, de entre as entranhas, apareceu um anel brilhante. Na ponta da faca, a criança, espantada, estendeu-o a Só-Deus-É-Rei, que se encontrava próximo. Este examinou-o e, com os olhos inflamados e a boca aberta, reconheceu o anel que o rei lhe havia confiado. Tinha sido lançado naquele lago. Um peixe engolira-o. A criança segurava-o agora na mão. Só-Deus-É-Rei deu uma gargalhada. Nessa noite festejou com a alegria desabrida de um miraculado.

Alguns dias mais tarde, os viajantes chegaram à cidade real. Só-Deus-É-Rei, regressado a casa, beijou a esposa e perguntou-lhe pelo chifre de carneiro. Ela respondeu que um rato o havia roído e engolido, sem dúvida, o anel. Franziu o sobrolho, com as mãos nas ancas. Mal ela se escapou para a rua, temendo a cólera do esposo, apareceram quatro guerreiros da guarda do palácio. Conduziram o homem junto do monarca, que saudaram em voz alta logo que entraram na sala do trono:

– Viva o rei para sempre!

– Viva o rei para sempre! – repetiram, em coro, os cortesãos reunidos.

O rei mandou-os calar com um gesto impaciente, fez sinal para que avançasse aquele que tinha ferido o seu orgulho e pediu-lhe o anel de ouro. Este enterrou a mão no grande bolso do seu traje e estendeu-lho, dizendo:

– Na verdade, só Deus é rei.

O monarca soltou um murmúrio de admiração, suspirou e respondeu, abanando a cabeça:

– Homem, tens toda a razão. Só Deus é rei.

Dividiu então o reino em duas partes iguais e ofereceu uma delas a Só-Deus-É-Rei, cujo nome se tornou tão caro ao coração dos Haoussas que ainda hoje se divertem a inscrevê-lo nas traseiras dos camiões, autocarros e barcos de pesca para que seja espalhado aos quatro ventos esta história estranha e verdadeira, sem a qual a vida não seria digna de confiança.

(Conto tradicional da África)

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Rui Vaz
#7

A ESTRELA
 

Era uma vez um rapaz chamado Toquin que vivia com os irmãos numa aldeia de estacas, à beira da grande floresta amazónica, mas era tão sonhador e calado, tão despojado de preocupação consigo mesmo e com os outros, que parecia não viver na casa e na terra dos antepassados. Na verdade, vivia nas nuvens, fascinado pelo céu, pela Lua e pelas estrelas. Todas as noites, à hora em que os seus não pensavam senão em dormir sobre as camas de folhas secas, Toquin deitava-se sobre a relva em frente da porta e contemplava a noite imensa com tanta felicidade que, por vezes, já não sabia se morava no universo ou se era o universo que residia no seu olhar.

Ora, uma noite descobriu uma estrela que nunca tinha visto e que brilhava no fundo das trevas, alegre, trocista. Toquin contemplou-a, com o coração a bater, sustendo a respiração, com medo de a perder. “Se pudesse estender a mão e agarrá-la como um pássaro”, pensou, “seria o mais feliz dos loucos. Fechá-la-ia numa gaiola, poderia falar com ela, encher o meu coração com a sua presença. Nunca mais me deixaria.” Suspirou, sentiu-se de repente invadido por um sono invencível e, quase no mesmo instante, ergueu-se a gritar.

Uma luz resplandecente acabara de aparecer, a alguns passos dele, sobre a pradaria. Pôs as mãos no rosto, curvou as costas, temendo um terrível prodígio. Nada aconteceu. Afastou, pois, os dedos e, espantado, descobriu uma rapariga cercada na noite por uma bruma luminosa. Tinha uma beleza fresca, terna e tão viva que ficou por momentos boquiaberto. Quando conseguiu falar, disse-lhe:

– Quem és tu? Donde saíste?

Ela respondeu-lhe:

– Sou aquela por quem chamaste, sou a estrela que queres fechar numa gaiola.

– Como podes ser uma estrela? – balbuciou Toquin, tão desconfiado como maravilhado.

– Sou – disse a rapariga. – Para ti é um mistério, para mim não. A vida é mais vasta do que pensas. Amas-me?

Toquin acenou que sim com a cabeça, com a garganta efervescente de palavras inexprimíveis. Ela disse-lhe ainda:

– Amanhã de manhã acompanhar-te-ei à caça. Agora vamos dormir.

Puxou-o para a relva e deitaram-se ambos.

No dia seguinte, assim que o dia nasceu, partiram juntos para a grande floresta. Caminharam durante muito tempo através dos matos, sem encontrarem a menor caça. À hora em que o Sol está no ponto mais alto do céu chegaram a uma clareira iluminada, calma e redonda, onde Toquin nunca tinha ido, no centro da qual havia uma palmeira tão magnificamente elevada que a folhagem se misturava com a das maiores árvores em volta. Diante dela pararam e levantaram a cabeça.

– Vê como são belos os frutos – disse a rapariga, apontando para o topo. – Chegas lá?

– Claro – respondeu Toquin.

Pousou o arco e as flechas na relva e içou-se destemidamente ao longo do tronco. Mal chegou às palmas, ouviu a companheira cá em baixo a chamá-lo:

– Agarra-te bem – gritou ela.

Pôs-se a subir atrás dele. No mesmo instante a palmeira cresceu, cresceu tanto que Toquin., agarrado à folhagem como um recém-nascido à mãe, viu a terra a afastar-se e a floresta aparecer como uma estepe longínqua, ondulante. A árvore furou as nuvens. Toquin fechou os olhos.

– Dá-me a mão – disse a rapariga.

Ele obedeceu, sentiu-se bruscamente arrastado em pleno céu e encontrou-se, deslumbrado, sobre uma vasta planície de areia, pedras e plantas raras.

Avistou no horizonte, plantada só sobre o deserto, uma casinha com telhado de lajes. A rapariga, vendo-o surpreendido, sorriu-lhe, acariciou-lhe o rosto e disse-lhe:

– Não tenhas medo. Espera-me aqui.

Partiu em direcção à casa. Toquin ficou tranquilamente sentado no chão, com o queixo pousado nos joelhos. Mal a viu regressar na luz distante, levantou-se e foi ao seu encontro. Trazia um cesto de fruta e pão, que comeram com apetite. Uma vez saciados, o rapaz tomou fôlego para fazer as perguntas que o atormentavam desde que deixara a clareira, mas a companheira pôs-lhe a mão na boca e disse-lhe:

– Tenho ainda de deixar-te por um momento. Aconteça o que acontecer, não saias daqui.

Ela pareceu-lhe subitamente preocupada.

– Promete-me que és paciente – disse-lhe ainda.

Ele prometeu. Ela afastou-se, voltou, fez-lhe um sinal com a mão e depois, correndo tão depressa que mal parecia tocar na areia, desapareceu ao longe.

Então Toquin ouviu vozes, barulhos de festa, cânticos. Esse rumor alegre parecia sair de uma rocha tão alta como uma porta no meio da planície. Avançou com passos prudentes. Os cânticos tornaram-se mais belos, a festa mais viva, as vozes mas exaltadas. Encorajado, caminhou francamente até ao rochedo, contornou-o e, no mesmo instante, parou, com as pernas a tremer, descobrindo as pessoas que o haviam atraído àquele lugar. Não havia um só que tivesse carne sobre os ossos, eram apenas esqueletos que rangiam, agitados por terríveis convulsões. Uns tocavam tambor, outros sopravam em flautas sonantes, e os corpos descarnados entrechocavam-se, os rostos sem olhar riam terrivelmente, os braços agitavam-se com estalidos, como membros de polichinelos grotescos. Quis gritar, mas só conseguiu gemer. Por pouco não caiu, agarrou-se ao rochedo e encostou-se, cheio de medo. Mesmo diante dele, à beira da planície, avistou o topo da palmeira. Correu para ele. O seu único desejo era agora regressar à terra, encontrar a aldeia dos antepassados, a casa de estacas, os irmãos.

No momento em que ia saltar para as palmas verdes sentiu-se preso pelos braços. Virou-se. A rapariga amada estava ali de novo tão próxima e bela que não viu à sua volta nem céu nem planície. Uma doce brisa sacudia os seus cabelos. Ela disse-lhe, com tristeza:

– Que pena não teres esperado por mim.

Ele não pôde responder, tão sufocado estava. Ela ainda lhe disse, com lágrimas nos olhos:

– Partes, Toquin, mas voltarás em breve. Ficarei, fielmente, à tua espera.

Toquin voltou-se, saltou para a folhagem, a palmeira encolheu, e a terra apareceu, e a floresta, e a clareira.

Mal desceu da árvore, sentiu-se tomado de febre e de uma fraqueza insuportável. Caiu de joelhos; quis levantar-se, mas não conseguiu. Pediu auxílio. Ninguém respondeu. Com grande esforço e ofegando, arrastou-se através dos arbustos até casa. Os irmãos deitaram-no sob um cobertor e acenderam o lume: tremia. Pareceu, por um momento, adormecido. A respiração enfraqueceu. À hora em que as estrelas se acendem no céu, ouvir murmurar ao ouvido:

– Vem, Toquin, não te demores, não me deixes só, eu amo-te.

Abriu os olhos, sorriu e morreu. Uma outra história, num outro lugar, começou então.

(Conto tradicional da América do Sul)

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Rui Vaz
#8

RAIO DE LUA
 

Quando viveu o que vos vou cantar, Mackam era um jovem de coração bom, espírito sonhador e beleza singela. Sofria, no entanto, de uma ferida secreta, de um desejo doloroso que lhe parecia incurável e dava ao rosto, quando caminhava nos seus sonhos, uma espécie de melancólica majestade. Queria saber sempre mais. Saber o quê, não podia dizer. O seu desejo era como uma sede sem nome, uma sede que não era da boca, mas da alma. Parecia-lhe que o peito estava perpetuamente vazio e seco. Às vezes caía num desespero inexplicável.

Frequentava assiduamente a mesquita, mas nas suas preces não era a sabedoria que desejava. Dizia-as, contudo, todas as noites, lia o Corão, procurava a paz na sua sabedoria. Eram muitas as vezes em que perdia a coragem. Na realidade, mais do que as palavras sagradas, provava o silêncio, a que, em voz baixa, chamava “o barulho do nada”, à hora em que a Lua brilhava no céu.

Amava a Lua com amizade grande e fiel. Ela tinha-o ensinado a despojar a vida dos seus pormenores inúteis. Quando aparecia, contemplava-a como a uma mãe perfeita. A sua presença simplificava a aridez e os obstáculos do mundo. À sua volta não havia mais nada senão a ponta da mesquita, a sombra negra da choupana, a curva pura do caminho, nada mais senão o essencial, e isso agradava infinitamente a Mackam.

Ora, numa noite de grande calor, quando regressava, ao longo do rio de águas turvas e silenciosas, da escola corânica, onde estivera durante muito tempo a meditar, assaltou-o o desejo de dormir nessa tranquilidade em que a sua alma se banhava. À beira da aldeia, deitou-se então aos pés de um baobá, pôs o Corão sob a nuca, cruzou os dedos sobre o ventre e ouviu os ruídos do nada em redor. O céu estava magnífico. As estrelas brilhavam como esperanças inumeráveis nas trevas. O coração de Mackam sentiu-se invadido por uma tal doçura que lhe fez um nó na garganta. “Saber a verdade do mundo – suspirou – saber!” Esta palavra pareceu-lhe mais torturante e bela do que alguma vez o fora até essa noite deliciosa. Olhou a Lua.

Então sentiu um raio pálido e direito como uma lança entrar dentro de si pela secreta ferida do seu espírito. Ao mesmo tempo, ao longo desse raio frágil, sentiu que subia em direcção à luz. Pareceu-lhe fácil. Tinha de repente uma leveza maravilhosa. Uma avidez jubilosa invadiu-o. A lentidão do mundo e os desgostos da Terra rapidamente lhe pareceram roupas velhas abandonadas. Pensou que iria, finalmente, atingir essa ciência que talvez nunca pudesse ensinar a ninguém, mas que o apaziguaria para sempre. Subiu mais alto. As estrelas desapareceram à volta da Lua redonda. Reteve a respiração para não romper o fio que o ligava ao infinito celeste. Ainda se elevou mais um pouco e chegou ao limiar de um vazio imenso e luminoso.

Nesse momento ouviu um choro distante de criança, miudinho e digno de pena. Escutou-o por um instante. Houve qualquer coisa dentro de si que se comoveu, talvez um desgosto esquecido, talvez um rasgo de pena terrestre levado para o céu. Mackam sentiu que descia imperceptivelmente. O choro transformou-se num gemido no meio da noite. Calou-se, inquietou-se. “Por que razão não dão amor a essa criança?”, perguntou-se, e subitamente teve uma grande vontade de chorar. Virou-se para o lado. Estava de novo dentro do seu corpo sob a árvore.

E no seu corpo, de olhos semicerrados pela luz das estrelas, viu o pátio de uma cabana e nesse pátio, deitado, um recém-nascido que soluçava, com os braços estendidos para uma mãe ausente. Mackam apoiou-se nos cotovelos, com o coração a bater, de boca aberta. Não havia casas nesse lado da aldeia. Murmurou:

– Quem é essa criança?

– Tu próprio – respondeu uma voz fluida sobre a sua cabeça.

Ergueu a fronte, esticou o pescoço e viu um pássaro negro pousado sobre um ramo baixo do baobá. Perguntou-lhe:

– Se sou eu, por que estava a chorar?

– Porque o poder do teu espírito não chegava para ultrapassar o verdadeiro conhecimento – disse-lhe o pássaro. – Também era preciso o teu coração, a tua carne, o teu sofrimento, as tuas alegrias. A criança que há em ti salvou-te, Mackam. Se ela não te tivesse acordado, terias entrado na eternidade sem esperança, a pior das mortes: aquela onde nada germina. Queima-te em todas as chamas, tanto as do sol como as da dor e do amor. É assim que se entra na verdadeira sabedoria.

O pássaro voou. Mackam levantou-se e partiu lentamente pelas ruelas da aldeia. Aqui e ali, às portas escuras, brilhavam luzes. Sob a árvore da praça, uma cabra entregava os seios às crias. Ao longe, um cão uivava à Lua, que pela primeira vez lhe pareceu uma irmã exilada. Sentiu-se cheio de piedade por ela, que nunca conheceria o gosto do leite e o calor de uma cama perto de um ser amado.

(Conto tradicional da África)

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Rui Vaz
#9

OS TRÊS VIAJANTES
 

Três viajantes caminhavam juntos pelo mato. O primeiro era da tribo dos Bambaras. Caminhava com passos nobres e comedidos, a mão sobre o punho do sabre pesado e brilhante que trazia no cinto, o tronco direito como o tronco de um baobá, a cabeça erguida e os olhos semicerrados pelo sol. Não dizia nada. Nada o ocupava senão o amor que enchia o seu coração. Pensava que ninguém o podia compreender e alegrava-se secretamente com isso.

Na última estação das chuvas, a esposa adoecera. Primeiro, irritara-se de a ver incapaz de cumprir os trabalhos domésticos. Tratara dela de má vontade, exigindo que ao menos cozinhasse as refeições, apesar da sua fraqueza. Todavia, duas semanas depois, o seu mal piorara. Então, sentira-se tomado de uma piedade desgostosa. Assumira sem protestar tarefas que não eram as de um homem, mas enfurecera-se secretamente de não poder fazer amor com aquela que acolhera sob o seu tecto. Achava que tinha direito às suas carícias, à sua docilidade. Certas noites, pouco faltou para que a acusasse de o enganar com o espírito mau que emagrecia o seu corpo.

A pobre mulher, pouco a pouco, não conseguia já responder às suas grosserias senão com olhares febris e infelizes. Então, vendo-a uma noite próxima da morte, muito assustado, sentiu o coração partir-se. “De bom grado”, murmurara ele, com as mãos no rosto, “de bom grado aceito cumprir em seu lugar todos os trabalhos domésticos, de bom grado renuncio a possuí-la até ao fim dos meus dias, resignar-me-ei a não mais a ver, desde que viva, Deus do céu, porque agora vejo que só a sua vida é importante, só a sua vida!” No dia seguinte, a esposa acordou quase curada e o seu homem descobrira o grande amor que nele habitava.

Para ela, de regresso de viagem, ia este bambara. Dos dois companheiros, um era do país mossi e o outro do país peul. O mossi caminhava suavemente, com os pés descalços na poeira, o arco num ombro e a aljava no outro. Era um homem de grande beleza. Os olhos, alegres, ansiosos e vivos como o fogo, contemplavam sem parar o fim do caminho. Também ele estava ocupado apenas com o amor e pensava que ninguém podia compreendê-lo.

Mal abandonara a infância, sentira o coração e o espírito invadidos por uma fome tão invulgar que se fora sozinho pelos caminhos, pensando que nada poderia jamais apaziguá-lo. Em verdade, era um homem que desejava agarrar tudo e por muito tempo não tivera fome a não ser de um tipo de esposa: aquela que quisesse dar tudo. Cruzara-se com inúmeras mulheres na sua estrada. De todas se desviara, até ao dia em que, no mercado de uma grande cidade, entre a multidão, encontrara aquela que procurava. Não era jovem nem velha, nem bela nem disforme. Encontraram-se face a face. Nem um nem outro proferiram palavra. Haviam-se olhado, e a mulher, nesse único olhar, dera tudo dela, e o homem tudo havia recebido, os seus desejos, os seus desgostos, as suas esperanças e as suas vergonhas, o seu descaramento e a sua santidade. Depois, bruscamente, ela distanciara-se em direcção a umas crianças, talvez as suas. Nesse momento soube que não podia ir mais longe e agora voltava à sua aldeia com esse secreto tesouro, que pensara que uma vida errante não chegaria para acumular e lhe fora dado num instante.

O terceiro viajante era um pastor, grande, esbelto e sonhador, como o são os Peuls. Não tinha outra arma além do cajado. O vento fazia ondular o seu hábito longo sobre o peito liso e o pano do turbante que lhe cingia a testa. Também era belo, mas de uma beleza especial: a dos seres que sabem falar às estrelas.

Tinha-se consumido durante muito tempo e purificado o coração para tentar merecer a mulher que amava, exigente e secreta, entre todas. Um dia longínquo apresentara-se à sua porta. Tinha murmurado:

– Sou eu.

Por detrás do batente fechado a bem-amada respondera-lhe, com voz doce:

– Não há lugar para ti e para mim na mesma casa.

Voltara então para junto das suas ovelhas. Ainda meditara e purificara a alma durante um ano inteiro. E agora voltava para aquela que prometera esperá-lo até que lhe dissesse a palavra que esperava ouvir. Estava feliz e confiante porque encontrara essa palavra e sorria no seu caminho, pensando nessa hora próxima em que de novo bateria à porta da sua amada. Ela dir-lhe-ia:

– Quem está aí?

E ele responderia:

– Tu própria.

E desta vez, sabia-o, seria acolhido.

Estes três viajantes, caminhando juntos, chegaram ao crepúsculo diante de um braço do rio de águas paradas. Para lá desse afluente estava a aldeia que era preciso alcançar antes da noite indecifrável e perigosa. Cada um decidiu transpor o obstáculo à sua maneira.

O bambara tirou o sabre da bainha, volteou-o poderosamente, rasgou as águas com um golpe cintilante e atravessou-as antes que se voltassem a unir.

Então o mossi armou o arco e visou uma árvore na outra margem. A primeira flecha espetou-se no lugar onde o tronco se separava em dois ramos principais, a segunda fixou-se na primeira, a terceira na segunda, e, fazendo assim assobiar as flechas no ar calmo até esvaziar a aljava, o homem construiu uma ponte infinitamente leve sobre o ribeiro. Sobre essa ponte elevou-se de braços abertos. Chegado à arvore, fez um gesto de amizade ao pastor peul, que mal distinguia na bruma da noite.

Então o pastor desenrolou o turbante, que outrora tecera com as próprias mãos, fez prontamente um nó fluido numa das extremidades, lançou-o, atingiu o cume de um rochedo, avançou ao longo dessa amarra que a brisa balançava e reuniu-se aos companheiros.

Dormiram nessa noite na mesma cabana e no dia seguinte separaram-se. O bambara estava no fim da sua viagem.

– Irmãos – disse ele – a cada um a sua aldeia no mundo, a cada um o seu destino, a cada um a sua beleza.

O mossi ia para mais longe, o peul ainda mais longe.

(Conto tradicional da África)

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#10

A PENA PESADA
 

Kassa Kena Gananina foi antigamente o herói mais poderoso, mais temido e mais amado do povo mandinga. Um só volteio da sua arma podia matar vinte antílopes. Um só rasgo de cólera nos olhos assustava tanto as flechas inimigas que todas caíam a seus pés como que para lhe pedirem compaixão. Um só suspiro da sua boca sorridente atraía a si as mais belas virgens das aldeias conquistadas. Kassa Kena Gananina era, em verdade, “aquele que nada podia vencer”. Assim lhe chamavam tanto entre os homens como entre os animais da Terra e os espíritos celestes.

Ora, uma noite, quando festejava uma jornada de caça carnívora, chegou à aldeia um viajante curvado sobre um cajado tão gasto pelos caminhos que mais parecia a bengala de um anão. Este venerável vagabundo, depois de saciado com um gole de água e alimentado com uma peça de carne, sentou-se sob a árvore das oratórias e pôs-se a contar as maravilhas que encontrara ao longo da sua vida errante por países longínquos. Aconteceu, assim, falar de um certo pássaro, Konoba, que vivia numa floresta montanhosa para lá dos territórios comuns dos homens.

– Esse monstro – disse – é tão gigantesco que escurece o dia quando abre as asas. Pode, no entanto, tornar-se tão pequeno como um punho de mulher, mas então fica tão pesado que os baobás se enterram no chão com o seu peso. Sabe ser belo, se quiser, medonho, se o desejar. É invencível. Quanto mais poderoso é quem o enfrenta, maior prazer e facilidade tem Konoba em vencê-lo, porque o seu alimento preferido é a própria força dos seus inimigos.

Kassa Kena Gananina, ouvindo estas palavras, franziu o sobrolho e baixou a cabeça. Os companheiros, vendo-o assim pensativo, desafiaram-no com insistência a sobreviver a um combate leal contra um monstro daquela espécie. Os elogios depressa aqueceram o coração do herói. Levantou-se, foi a casa buscar a arma e, sem dizer palavra, saiu em direcção a essa montanha onde vivia o prodigioso dragão.

Caminhou sete dias e sete noites, com passos largos e a cabeça metida nos ombros, sem descansar. Na madrugada do oitavo dia chegou à última aldeia antes da terra do Konoba. Perguntou onde vivia este inimigo dos homens que desejava combater. Um velhote, tremendo de susto só de ouvir o nome do monstro, descreveu-lhe o caminho que desembocava na floresta.

Kassa Kena Gananina, nesse caminho enevoado, andou até ao meio-dia sem encontrar caça ou caçador. Chegado a uma clareira, o sol desapareceu repentinamente e, à sua volta, fez-se uma grande penumbra. O céu encheu-se de um murmúrio semelhante ao que atravessa a terra quando as suas entranhas se movem. O herói ergueu a fronte. Viu o pássaro. Estava imóvel à altura duma árvore. A cabeça de bico amarelo e curvo pendia entre as asas, tão vastas como o céu visível. Os olhos eram parecidos com duas luas de cores variadas. As garras eram sabres curvos.

– Homem poderoso e belo, eu te saúdo – disse o dragão celeste com voz aguda. – A tua força parece-me tão saborosa como um fruto fresco. Acende em ti a ira e a cólera, que eu me sacie com elas!

Kassa Kena Gananina estendeu o punho armado à face trocista, saltou para um rochedo, fez voltear a sua maça de ferro. No primeiro volteio vazou o olho esquerdo do pássaro Konoba, no segundo cegou o olho direito, que chorou lágrimas de fogo. Então, num sussurro ensurdecedor de asas, o monstro encolheu e num instante reduziu-se a uma bola negra, a qual num longo silvo desceu do céu e caiu tão pesadamente que a terra tremeu e abriu fendas. Kassa Kena Gananina, de cabeça erguida para o grande Sol, soltou um grito de triunfo.

Viu uma pena, a última salva das asas evaporadas, balancear-se no ar calmo sobre a sua cabeça. Quis agarrá-la, mas escapou-se-lhe e pousou na nuca. Então o herói curvou as costas, titubeou, caiu de joelhos e deixou-se ir até enterrar o queixo na terra, coberto por esse fardo insuportável. Tentou arrancar essa pena muito pesada do cabelo, onde estava presa. Não o conseguiu e ficou grotescamente ajoelhado, resmungando e debatendo-se como uma raposa apanhada na armadilha.

Depois de ter gritado, pedido ajuda e, finalmente, gemido durante muito tempo sem forças, veio o crepúsculo e com ele apareceu ao fundo da clareira uma mulher de idade. Trazia às costas uma criança pequena de pernas roliças, mas já em idade de andar. Kassa Kena Gananina chamou-a, agitando a mão sobre a erva, e, com voz moribunda, pediu-lhe que fosse buscar todos os homens da aldeia para que o ajudassem a desfazer-se daquela pena tão pesada como um monte.

– Que pretendes tu – disse ela – para precisares de sessenta e cinco guerreiros do meu clã para te tirarem essa coisa da nuca?

Debruçou-se, soprou e a pena voou. Depois agarrou no pássaro Konoba, reduzido a uma bola no solo fendido, e estendeu-o à criança, que o agarrou e brincou com ele, rindo, entre as suas mãos ágeis. Os dois afastaram-se na paz do dia que acabava.

Kassa Kena Gananina ficou durante muito tempo sentado no chão, completamente estupefacto e desconcertado. Depois voltou à sua aldeia, onde contou a aventura à sombra da árvore das oratórias. Quando disse como tinha sido libertado, fez-se um silêncio perplexo na assembleia. Então um ancião sonolento bocejou ruidosamente e disse, levantando-se para se ir deitar:

– Para quem não sabe nada do pássaro Konoba uma pena é uma pena – balbuciou. – Boa noite, senhores.

Kassa Kena Gananina beijou as mãos desse sábio e, a partir desse dia, entregou-se à conquista infinita do bem mais precioso do que toda a força: a inocência.


(Conto tradicional da África)

Last update on September 20, 5:48 pm by Rui Vaz.
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Rui Vaz
#11

O TESOURO DO BAOBÁ
 

Num dia de grande calor, um lebrão parou à sombra de um baobá, sentou-se na erva e, contemplando ao longe a restolhada sob o vento a soprar, sentiu-se infinitamente bem. “Baobá”, pensou ele, “como é leve e fresca a tua sombra ao braseiro do meio-dia!” Levantou o focinho para os ramos poderosos. As folhas estremeceram, felizes, devido aos pensamentos simpáticos que se lhes dirigiam. O lebrão riu-se, vendo-as contentes. Ficou calado por uns instantes e depois, piscando o olho e batendo com a língua, tomado de malícia jovial, disse:

– A tua sombra é boa, é claro, seguramente melhor do que o teu fruto. Não quero maldizer, mas o que me pende sobre a cabeça tem todo o ar de um odre de água morna.

O baobá, despeitoso de ouvir assim duvidar dos seus sabores depois do elogio que lhe abrira a alma, entrou no jogo. Deixou cair o fruto num tufo de erva. O lebrão farejou-o, provou-o, achou-o delicioso. Depois devorou-o, lambeu o focinho e balançou a cabeça. A grande árvore, impaciente por ouvir o seu veredicto, susteve a respiração.

– O teu fruto é bom – admitiu o lebrão.

Depois sorriu, retomou a alegria impertinente e acrescentou:

– Seguramente é melhor do que o teu coração. Perdoa-me a franqueza: o coração que bate em ti parece-me mais duro do que uma pedra.

O baobá, ouvindo estas palavras, sentiu-se invadido por uma emoção que jamais experimentara. Oferecer a este pequeno ser as suas belezas mais secretas, Deus do céu, era o seu desejo, mas, assim, tão de repente, que medo tinha de as descobrir! Lentamente entreabriu a casca. Então apareceram colares de pérolas, panos bordados, sandálias finas, jóias de ouro. Todas estas maravilhas que enchiam o coração do baobá escorreram em profusão diante do lebrão, cujo focinho tremeu e cujos olhos se arregalaram.

– Obrigado, obrigado. És a melhor e a mais bela árvore do mundo – disse ele, rindo como uma criança satisfeita e apanhando febrilmente o magnífico tesouro.

Voltou a casa com as costas dobradas por todos esses bens. A mulher acolheu-o, pulando de alegria. Aliviou-o depressa de tão belo fardo, vestiu panos e sandálias, ornou o pescoço de jóias e saiu para o mato, impaciente de ser admirada pelas companheiras.

Encontrou uma hiena. Esse cadáver, ofuscado pelas invejáveis riquezas que passavam por si, foi imediatamente à toca do lebrão e perguntou-lhe onde tinha encontrado aqueles ornamentos soberbos com que se vestia a esposa. O outro contou-lhe o que tinha dito e feito à sombra do baobá. A hiena correu para lá com os olhos inflamados, ávida dos mesmos bens. Jogou o mesmo jogo. O baobá, que a alegria do lebrão tinha verdadeiramente rejubilado, de novo se agradou de dar a sua frescura, depois a música da sua folhagem e o sabor do seu fruto, finalmente a beleza do seu coração.

Mas quando a casca se abriu, a hiena atirou-se às maravilhosas oferendas como sobre uma presa e, escavando com unhas e dentes as profundezas da velha árvore para dela ainda arrancar mais coisas, pôs-se a resmungar:

– E nas tuas entranhas o que há? Também quero devorar as tuas entranhas! Quero tudo o que tens até às tuas raízes! Quero tudo, ouves?

O baobá, ferido, dilacerado, tomado de medo, guardou os seus tesouros e a hiena, insatisfeita e furiosa, voltou de mãos vazias para a floresta.

Desde esse dia, que procura desesperadamente oferendas ilusórias nos animais mortos que encontra, sem nunca ouvir a brisa singela que acalma o espírito. Quanto ao baobá, já não abre a ninguém o seu coração. Tem medo. É preciso compreendê-lo: o mal que lhe fizeram é invisível, mas incurável.

Em verdade, o coração dos homens é semelhante ao desta árvore prodigiosa: cheio de riquezas e benefícios. Por que se abrirá tão pouco, quando se abre? De que hiena se lembrará?

(Conto tradicional da África)

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Rui Vaz
#12

OS DOIS SONHADORES
 

Na cidade de Isaphan, na Pérsia, viveu antigamente um camponês muito pobre que tinha como únicos bens uma humilde casa baixa cor de terra queimada, um campo árido em frente desta e, no fundo desse campo, uma fonte e uma figueira. Era tudo o que possuía.

Esse homem, que trabalhava muito para colher pouco, tinha por costume fazer a sesta à sombra da figueira quando o quadrante solar meio apagado sobre a fachada indicava a hora do meio-dia. Ora, um dia, tinha ele adormecido com a nuca encostada ao tronco da árvore, teve um sonho maravilhoso. Viu-se a caminhar numa cidade populosa, vasta, magnífica. Ao longo da rua onde andava preguiçosamente, havia lojas repletas de frutos e especiarias, de couros e de tecidos multicores. Ao longe, no céu azul, erguiam-se minaretes, abóbadas, palácios dourados. O nosso homem, contemplando, deslumbrado, essas riquezas, essas coisas belas e os rostos graciosos da multidão à sua volta, chegou pouco depois, na luz e na facilidade do seu sonho bendito, à borda de um rio atravessado por uma ponte de pedra. Avançou para essa ponte e, de repente, parou, maravilhado, perto do primeiro marco, onde se encontrava um grande cofre aberto, um prodigioso tesouro de moedas de ouro e pedras preciosas. Ouviu então uma voz que lhe disse:

– Estás na grande cidade do Cairo, no Egipto. Estes bens, amigo, são-te prometidos.

Mal estas palavras se acenderam no seu espírito, acordou sob a sua figueira, em Isaphan.

Pensou imediatamente que Alá o amava e desejava enriquecê-lo. “Na verdade”, disse, “este sonho só pode ser o fruto da sua bondade indulgente.” Fechou o baú, escondeu a chave do casebre entre duas pedras da parede e foi-se naquela hora para as terras do Egipto procurar o tesouro prometido.

A viagem foi longa e arriscada, mas, por graça natural, o bom homem tinha o passo sólido e a saúde rígida. Escapou aos salteadores, aos animais selvagens, às armadilhas do caminho. Ao fim de três duras semanas chegou, enfim, à grande cidade do Cairo, que achou exactamente igual ao que tinha visto no sonho: as mesmas ruas estavam sob os seus passos. Caminhou entre a mesma multidão indolente ao longo das mesmas lojas repletas de todos os bens do mundo. Deixou-se conduzir pelos mesmos minaretes, ao longe, no céu límpido. Chegou, assim, à borda do mesmo rio que a mesma ponte de pedra atravessava. À entrada da ponte havia o mesmo marco. Correu para ele, com as mãos já estendidas para a fortuna, mas quase na mesma altura agarrou na cabeça, gemendo. Apenas estava lá um mendigo, que lhe estendeu a mão, pedindo uma côdea de pão. De tesouros, nem o mais pequeno traço.

Então o nosso corredor de sonhos, no fim das suas forças e energias, desesperou. “De que serve viver daqui por diante?”, disse para consigo. “Nada mais me poderá acontecer neste mundo.” Com o rosto banhado em lágrimas, caminhou até ao parapeito, decidido a deitar-se ao rio. O mendigo reteve-o com a ponta do pé, acompanhou-o na laje da ponte, tomou-o pelos ombros e disse-lhe:

– Por que queres morrer, pobre louco, numa altura tão bela?

O outro, soluçando, contou-lhe tudo: o sonho, a esperança de encontrar um tesouro, a longa viagem. Então o mendigo pôs-se a rir às gargalhadas, bateu na testa com a palma da mão e, descrevendo-o em redor como um bobo, disse-lhe:

– Olhem bem para o mais perfeito idiota da Terra. Que loucura arriscar uma viagem tão perigosa com fé num sonho! Pensava que era ignorante, mas ao pé de ti, bom homem, sinto-me sábio como um muçulmano. Este que aqui está a falar contigo, todas as noites, há muitos anos, sonha que se encontra numa cidade desconhecida, cujo nome é, creio eu, Isaphan. Nessa cidade há uma pequena casa baixa cor de terra queimada com uma fachada pobremente enfeitada por um quadrante solar meio apagado. Diante dela está um campo de pedra e, no fim do campo, uma fonte e uma figueira. Todas as noites, no meu sonho, cavo um buraco fundo no pé dessa figueira e descubro um cofre transbordante de moedas de ouro e pedras preciosas. Alguma vez ousei correr para esse milagre? Não. Sou um homem razoável. Fiquei a mendigar tranquilamente a minha subsistência nesta ponte. Sonho, mentira, diz o provérbio. Onde Deus te pôs, é aí que deves morar. Vai, medita e sê no futuro menos ingénuo, viverás melhor.

O camponês, feita a descrição, reconheceu a sua casa e a sua figueira. De súbito, com o rosto iluminado, abraçou o mendigo, maravilhado com aquele acesso súbito de entusiasmo, e voltou a Isaphan, correndo e saltando, como um homem dotado de alegria inesgotável. Chegado a casa, nem tempo teve de abrir a porta. Agarrou na enxada, cavou um grande buraco no pé da figueira, onde descobriu um imenso tesouro. Então, atirando-se para o chão, disse:

– Alá é grande e eu sou seu filho.

Assim acaba a história.

(Conto tradicional da Pérsia)

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Rui Vaz
#13

NUVEM-DE-ABRIL E AS MANCHAS BRANCAS DO SOL
 

De uma tribo ratoeira estabelecida em quatro rochedos entre os arbustos de um flanco da colina, fazia parte uma ratinha cinzenta, chamada Nuvem-de-Abril, de que ninguém gostava: achavam-na demasiado louca. Na verdade, Nuvem-de-Abril sofria de um grave defeito: ouvia continuamente um ruído vago, um murmúrio confuso, uma música infinitamente ténue, de que ninguém, senão ela, se apercebia. De tempos a tempos, na paz das ervas, levantava a pata dianteira do focinho e, com o olhar subitamente perdido na distância, dizia às companheiras:

– Ouviram?

– Não – respondiam as outras. – O quê?

– Este ruído encantador, miudinho.

– Estás a sonhar – troçavam as irmãs.

Nuvem-de-Abril calava-se, mas continuava a achar, só contra todas, que o ruído era indiscutível.

Um belo dia, duramente gozada pelas vizinhas, revoltou-se e, para provar que não era a louca que pensavam, decidiu desvendar a fonte desse ruído. Partiu então, farejando o ar, para o vale donde lhe parecia vir. Caminhou durante muito tempo, descobriu para lá dos comuns territórios de caça rochedos desconhecidos, encostas inimagináveis, armadilhas, barrancos. Não se preocupou, tão exaltada estava com esse rumor, que aumentava à medida que se aproximava e se ia tornando cada vez mais preciso e musical. Após três dias de galope extenuante por um caminho de erva de pasto, chegou aos pés de um arbusto frondoso, atrás do qual sentiu presente, ao alcance da vista, a própria fonte do ruído, enfim atingido. Com o coração a bater, afastou as folhas resplandecentes, viu e maravilhou-se.

Um ribeiro que corria entre as rochas, cintilante e vivo: eis donde vinha a música. Nuvem-de-Abril, estupefacta, aproximou-se da borda. No meio da água, pousada sobre um seixo coberto de musgo, avistou uma rã. Cumprimentou respeitosamente essa criatura desconhecida.

– Como deves ser feliz vivendo rodeada por este murmúrio delicioso! – disse-lhe. – De bom grado daria metade do meu tempo de vida para ficar ao teu lado.

– Podes juntar-te a mim à vontade, se assim o queres – respondeu-lhe a rã. – Apoia-te nas patas traseiras e salta tão alto quanto puderes. Cairás infalivelmente ao pé de mim.

– Verdade?

– Verdade – coaxou a rã.

Nuvem-de-Abril enterrou, pois, as patas traseiras na relva húmida da margem, preparou-se, saltou, mas no mesmo instante gritou, caiu num feixe de espuma entre as ondas, debateu-se, pediu socorro, agitou-se, conseguiu, agonizando e cuspindo, agarrar-se à margem oposta. Após arfar durante um longo momento, retomou o fôlego e, gritando de indignação e terror, disse à rã impassível:

– Por pouco que me afogava!

– Isso não importa – respondeu a outra.

Nuvem-de-Abril, escandalizada, ergueu-se, fulminou, berrou:

– Pouco faltou para que morresse por causa da tua inqualificável perfídia e atreves-te a dizer que não há aí nada de grave?

– Atrevo-me a dizê-lo – respondeu a outra – porque o único facto que conta é saber se te apareceu alguma coisa no momento em que chegavas ao mais alto desse ridículo salto que te conduziu aí.

Nuvem-de-Abril, estupefacta, reflectiu por um breve momento.

– Estou a pensar – disse, de repente mais calma. – Vi, com efeito, uma coisa que o medo da morte e a minha raiva contra ti me haviam feito esquecer. Vi, no tempo de um relâmpago, manchas brancas no Sol.

– Eis, pois, onde deves ir – respondeu a rã. – Acredita na minha velha experiência, sei adivinhar os raros instantes em que se revela claramente o fim último das existências. Não vieste à Terra senão para alcançar as manchas brancas do Sol.

Nuvem-de-Abril ficou calada muito tempo, depois balançou a cabeça. Aquele estranho animal tinha toda a razão. Nunca desejara senão isso: alcançar as manchas brancas do Sol. Como seria ser possível ter perdido essa evidência?

Partiu, pois, sempre em frente, perguntando-se como seria possível chegar a esse lugar inacessível onde tinha de ir. Parando apenas para dormir e petiscar alimentos escassos, atravessou, assim, inúmeras estações, sobreviveu a tempestades, a dentes inimigos, chegou, por fim, a uma floresta profunda, esgotou-se tanto pelos matos que uma noite, na orla de uma clareira, sentiu-se no fim da vida. Ora, quando se deitava para morrer, apareceu-lhe diante do focinho poeirento uma rata parecida com ela, ainda que mais velha. Esta companheira inesperada acolheu-a, tratou dela e alimentou-a. Depois de cinco luas de boas comidas e de sestas quotidianas, Nuvem-de-Abril disse um dia à velha irmã:

– Não faço senão pavonear-me. É tempo de retomar o meu caminho.

– Fica comigo – respondeu-lhe a outra. – Vê: eu vivo bem, o meu território de caça é infinito, os meus celeiros estão cheios durante todo o ano. Poderias viver feliz na minha companhia.

– Não – disse Nuvem-de-Abril. – Antes de morrer, tenho de alcançar as manchas brancas do Sol.

– Tonta – chorou a solitária. – Sabe que também eu na minha juventude tentei ir onde nunca chegarás. Uma viagem assim é impossível para os humildes ratos que somos. Sê razoável e saboreia como eu a paz da renúncia.

– Não desejo a paz – respondeu ela. – Adeus e sê abençoada por me teres salvo.

Por um caminho secreto conhecido da velha eremita, Nuvem-de-Abril saiu então da floresta e chegou uma manhã à entrada da grande pradaria. Assim que deu uma centena de passos, descobriu, meio escondido entre ervas enormes, um grande bisonte ali deitado sobre a encosta. O animal arfava como morto, o pêlo traçado, o focinho lacrimejante. Nuvem-de-Abril aproximou-se.

– Pareces-me bastante mal, belo animal – disse. – Posso fazer alguma coisa por ti?

O bisonte levantou a custo uma pálpebra e respondeu:

– Na verdade, a vida vai deixar-me dentro em pouco se não me ajudarem. E temo que ninguém seja tão bom que me ofereça o remédio de que preciso.

– E do que precisas? Fala e prometo-te, palavra de rato, salvar-te, por muito pouco que possa.

– Um olho da tua cabeça, eis o que me devolveria a vida – disse o bisonte. – Ora, sei bem que neste mundo comezinho ninguém é generoso a ponto de, por bondade, se desfazer de um olho! Segue, pois, o teu caminho e deixa-me morrer em paz.

– Um olho da minha cabeça! – chorou Nuvem-de-Abril. – Deus do céu!

Sentou-se, confusa, sobre um monte de terra, remoeu, reflectiu. Ouviu então uma voz que lhe murmurou: “Por muito que te custe, é inegável que podes viver zarolha sem um desgosto desmesurado. Assim, se o teu olho esquerdo pode salvar este animal, é justo que lho dês”.

Mal saboreou estas palavras, o olho brotou-lhe da órbita como uma pedra lançada, indo fixar-se na pálpebra do bisonte, que no mesmo instante saltou sobre as patas e sacudiu o pescoço, tão vivo como nos mais belas dias da sua juventude.

– Se, por tua vez, quiseres alguma coisa minha – disse ele a Nuvem-de-Abril – ofereço-te o meu auxílio de boa-vontade.

Nuvem-de-Abril disse-lhe onde queria ir. O bisonte respondeu-lhe que as manchas brancas do Sol estavam fora do seu alcance.

– Porém – disse-lhe – posso levar-te até ao sopé das Montanhas Rochosas. São tão longe daqui que, de qualquer maneira, não conseguirias lá chegar sozinha. Agarra-te ao meu pêlo e daqui a três dias estaremos lá.

Assim fez. Três dias mais tarde o bisonte deixou a benfeitora na base das Montanhas Rochosas, desejou-lhe boa sorte e voltou para a extensa planície.

Nuvem-de-Abril começou então a escalar esses montes desmesurados, rodeados de abismos, batidos por tempestades. Fatigou-se, extenuou-se, esgotou-se. Parou, por fim, com as patas sangrando, sobre um rochedo pontiagudo, levantou a cabeça e contemplou o cume. Viu-o tão distante que perdeu toda a coragem. “Nunca”, pensou, “alcançarei aquelas alturas. Não consigo dar nem mais um passo.” Deixou-se escorregar pela parede da rocha e deu um grito de surpresa: diante dela estava um velho lobo deitado com o focinho entre as patas.

– Quem és tu, estranho animal? – perguntou ela. – E que fazes aí?

– Não sei – respondeu o outro. – Perdi a memória e o desejo de viver. Sem dúvida, irei em breve juntar-me aos meus antepassados. Tudo aquilo de que tenho a certeza (mas donde me vem esta certeza?) é de que um olho da tua cabeça me devolveria a saúde. Não teria, porém, o descaramento de to pedir. Imagino como precisas daquele que te resta.

– Preciso muito dele – respondeu Nuvem-de-Abril, com um tom tão definitivo que o velho lobo suspirou e de novo pareceu desinteressar-se do mundo.

“Vai morrer.” pensou ela, perturbada. “Caia sobre mim a vergonha se não o salvar enquanto posso.”

Mal este pensamento germinou no seu espírito, o olho direito brotou-lhe da órbita. O lobo levantou a pálpebra no mesmo instante, assustado, como se um grão de areia lhe tivesse tocado, e levantou-se, muito satisfeito e impaciente por viver, mas Nuvem-de-Abril não o viu: estava cega.

– Não te abandonarei mais – disse-lhe o lobo. – Levar-te-ei a todos os sítios aonde queiras ir, irmãzinha.

– Quero ir às manchas brancas do Sol – respondeu ela. – Mesmo sabendo que nunca mais poderei contemplar a sua luz, não desejo mais nada senão ir até lá.

O lobo respondeu-lhe:

– Agarra-te com firmeza à minha boca e partamos imediatamente. É claro que não serei capaz de alcançar esses lugares celestes, são demasiado altos para mim, mas pela vida que me devolveste levar-te-ei tão longe quanto puder.

Subiu durante muito tempo, de focinho baixo, sem repousar, até às neves eternas, até às nuvens, ainda até não mais poder pôr uma pata à frente da outra.

– Agora tens de continuar sem mim – disse, finalmente, esgotado. – O Sol está próximo, vejo-o ali a algumas passadas, parecido com uma grande bola resplandecente, quase que enche o céu. Continua em frente, irmãzinha, eu estou a cair!

Deu um grito assustador. Nuvem-de-Abril gritou também, debateu-se, abandonada numa imensidão sem limites. Subiu, subiu até ao fim das suas forças, içou uma última vez a pata à frente do focinho, perdeu a consciência.

Quando acordou, pareceu-lhe que saía de um sonho. Suspirou e abriu os olhos. Milagre: via. Chegara ao termo da viagem, estava no próprio coração do Sol. Aves majestosas voavam à volta e contemplavam-na com respeito. Olhou o corpo, alisou o peito e riu, maravilhada: Nuvem-de-Abril já nada tinha de um humilde rato cinzento, tinha-se transformado numa águia.

(Conto tradicional da América do Norte)

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Rui Vaz
#14

O HOMEM QUE NÃO QUERIA MORRER
 

Pedro era pobre e a miséria pesava-lhe. Tornou-se soldado. No primeiro campo de batalha aonde as suas botas o conduziram jogou a vida, de que pouco gostava, com uma despreocupação tão exemplar que o rei, maravilhado com tal temeridade, o fez capitão. Arrastou então os soldados, através de bombas e metralhas, com um furor tão admirável que o soberano, transbordante de entusiasmo, logo fez dele o mais jovem dos generais. Brandindo alto a bandeira à cabeça das tropas, este novo chefe de homens conquistou em poucos dias o reino inimigo. Assinado o armistício, o monarca, reconhecido, fez de Pedro, o pobre, tornado o mais célebre dos súbditos, seu primeiro-ministro.

Chegando ao topo do poder, reinou tão furiosamente como combatera. Favoreceu os cortesãos que souberam lisonjeá-lo e mandou enforcar os que ousaram fazer-lhe frente. As vítimas da sua crueldade foram numerosas e de todos os géneros. Uma manhã, um desses desgraçados que acabara de condenar agarrou-o pela aba do fato, antes de ser levado pelos guardas, e disse-lhe:

– Hás-de pagar pelo que fazes. Não há nenhum homem poderoso neste mundo que um dia não tenha ficado por baixo.

– Quem poderia alcançar-me onde estou agora? – perguntou Pedro, olhando com desdém o descarado.

– A morte – respondeu o outro. – Ninguém lhe escapa. Que seja para ti, quando chegar a hora, tão cruel como o teu coração.

Pedro ficou secretamente transtornado por estas palavras. Reflectiu, sentiu-se subitamente tão desprotegido como no tempo em que era um miserável e revoltou-se imediatamente contra o destino. “Não quero morrer” pensou. “Deve existir em qualquer lado um lugar de imortalidade. Tenho de encontrá-lo.” Despediu-se do rei e partiu sozinho, como um vagabundo, à procura da terra onde ninguém morresse.

Caminhou obstinadamente durante semanas, meses, anos inteiros, sempre em frente para o levante, até que um dia chegou a uma cidade onde ninguém se lembrava de ter enterrado um homem. Alojou-se, pois, nessa região bendita e aí viveu três calmos séculos. Ora, numa manhã de Verão uma ave prodigiosa invadiu o céu. As asas abertas tocavam os horizontes opostos. Pedro assustou-se e interrogou as pessoas do lugar, todas muito velhas e sábias, as quais lhe responderam que a ave, cuja vinda lhes fora anunciada em sonhos, se alimentava de areia e terra e que o fim dos tempos viria quando tivesse devorado aquele território. É claro que a morte ainda estava distante, mas Pedro viu-a inevitável. Agarrou, pois, no cajado de vagabundo e partiu à procura de uma eternidade mais segura.

Caminhou durante tanto tempo que perdeu o conto dos anos. Chegou uma noite a uma ilha onde ninguém morria desde a criação do mundo. Após seis séculos calmos, quando, por fim, se achava invulnerável, um peixe colossal apareceu sobre o mar ao largo daquela miraculosa terra. A boca deste ser monstruoso engolia, a cada batimento de barbatana, enormes quantidades de água. Pedro, ouvindo falar o povo reunido, soube que o fim dos tempos viria quando este peixe tivesse bebido todo o mar à volta da ilha. De novo se pôs a caminho, fugindo da morte anunciada. Mas desta vez, por muito que percorresse a Terra em todas as direcções, não descobriu nada que lhe valesse. Chegado à beira de um extremo do mundo, perdida toda a esperança, sentou-se sobre uma pedra e começou a chorar.

Nesse momento avistou, através das lágrimas, uma mosca que se debatia numa teia de aranha estendida entre dois talos de erva. Enquanto a contemplava, um sentimento que nunca experimentara tocou-lhe o coração: a piedade. Libertou-a. Uma vez livre, a mosca começou a zumbir e a rodopiar tanto à roda da sua cabeça que o deixou tonto. Fechou os olhos por um momento. Quando os reabriu, estava diante dele uma mulher maravilhosa, comovente como a rapariga cuja imagem o habitava desde a infância, mas que nunca encontrara, que lhe disse, a rir:

– Sou uma fada. Estava prisioneira num corpo de mosca e tu libertaste-me. Quero agradecer-te. Pede um desejo. Será satisfeito.

Pedro respondeu-lhe que o seu maior desejo era nunca morrer.

– Só conheço um país onde a morte é ignorada, o meu – disse-lhe a fada. – Se quiseres, posso levar-te lá.

– Partamos já – disse Pedro.

A luz do dia apagou-se e quase no mesmo instante reacendeu-se. Estava num mundo novo, onde viveu inumeráveis séculos.

Numa noite, porém, cheio de saudades, sentiu vontade de reviver a aldeia onde vivera no tempo em que era pobre. Disse-o à fada, sua companheira, que ficou muito triste e fez tudo o que pôde para o dissuadir de abandonar aquele paraíso. Todavia, como se tornara taciturno ao ponto de já nem sequer querer saborear o seu amor, ofereceu-lhe um cavalo celeste e afastou-se tristemente.

Sobre essa montada Pedro voltou à Terra, só parando à entrada do seu país de criança. É evidente que não encontrou nada que tivesse deixado. A aldeia tornara-se uma grande cidade e as pessoas falavam com uma língua que desconhecia. Tomaram-no por louco, pois estava estranhamente vestido, arrastando uma longa barba atrás de si, e balbuciava palavras incompreensíveis. Perseguido, partiu, seguido por gritos de crianças e uma saraivada de pedras.

Desvairado, caminhou durante um dia inteiro. Ao crepúsculo, avistou à beira do caminho uma grande mulher vestida de preto, de pé ao lado de uma pilha de sapatos tão alta como a enorme foice de aço resplandecente que apertava na sua mão direita.

– Eis-te, por fim – disse-lhe ela. – Procuro-te há milénios. Sou a morte. Esta pilha de sapatos são os que usei para ir atrás de ti. Confia-te agora à minha bondade.

Então Pedro deu um grande suspiro de libertação, ajoelhou-se e murmurou:

– Sê bem-vinda.

E a mulher de negro enrolou-o no seu casaco de noite.

(Conto tradicional da Rússia)

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Rui Vaz
#15

O CONTADOR DE HISTÓRIAS
 

Yacoub era pobre, mas despreocupado, feliz, livre como um saltimbanco, sonhando sempre mais alto do que a sua fronte. Em boa verdade, estava apaixonado pelo mundo. Porém, o mundo à sua volta parecia-lhe sombrio, brutal, seco de coração, de alma obscura, e sofria com isso. “Como”, interrogava-se, “fazer com que seja melhor? Como trazer à bondade estes tristes vivos que vão e vêm sem olhar os seus semelhantes?” Ruminava estas perguntas pelas ruas de Praga, a sua cidade, vagueando e saudando as pessoas, que não lhe respondiam.

Ora, uma manhã, quando atravessava uma praça cheia de sol, teve uma ideia. “E se lhes contasse histórias?”, pensou. “Assim, eu, que conheço o sabor do amor e da beleza, levá-los-ia seguramente à felicidade.” Pôs-se em cima de um banco e começou a falar. Os velhotes, as mulheres, as crianças, admirados, pararam um momento a ouvi-lo, mas depois viraram-lhe a costas e prosseguiram caminho.

Yacoub, achando que não podia mudar o mundo num dia, não perdeu a coragem. No dia seguinte, voltou àquele mesmo lugar e de novo lançou ao vento, com voz forte, as mais comoventes palavras. Outras pessoas pararam para o ouvir, mas em número menor do que na véspera. Alguns riram-se dele. Houve mesmo quem lhe chamasse louco, mas não se importou. “As palavras que semeio germinarão”, pensou. “Um dia entrarão nos espíritos e acordá-los-ão. Tenho de falar, falar mais.”

Teimou, pois, e dia após dia voltou à grande praça de Praga para falar ao mundo, contar maravilhas, oferecer aos seus semelhantes o amor que sentia. Todavia, os curiosos tornaram-se cada vez mais raros, desapareceram e em breve apenas falava para as nuvens, o vento e as silhuetas apressadas, que já só lhe lançavam uma olhadela de espanto à medida que passavam. No entanto, não desistiu.

Descobriu que não sabia nem desejava fazer outra coisa que não fosse contar as suas histórias elucidativas, mesmo que não interessassem a ninguém. Começou a dizê-las de olhos fechados, pela única felicidade de as ouvir, sem se preocupar se era ouvido. Sentiu-se bem e a partir dali só falava assim: de olhos fechados. As pessoas, temendo relacionar-se com as suas extravagâncias, deixaram-no só, com as suas histórias, e habituaram-se, assim que ouviam a sua voz ao vento, a evitar a esquina da praça onde se encontrava.

Assim se passaram anos. Ora, numa noite de Inverno, enquanto contava um conto prodigioso ao crepúsculo indiferente, sentiu que alguém o puxava por uma manga. Abriu os olhos e viu uma criança, que, fazendo uma careta engraçada, lhe disse, esticando-se nas pontas dos pés:

– Não vês que ninguém te ouve, nunca te ouviu, jamais te ouvirá? Que diabo te empurrou a viveres assim a vida?

– Estava louco de amor pelos meus semelhantes – respondeu Yacoub. – Foi por isso que, no tempo em que ainda não eras nascido, me veio o desejo de os tornar felizes.

O miúdo replicou:

– Pois bem, pobre louco, e eles são-no?

– Não – disse Yacoub, abanando a cabeça.

– Porque razão teimas então? – perguntou ternamente a criança, tomada de repentina piedade.

Yacoub reflectiu por um instante.

– Eu falo sempre, é claro, e falarei até morrer – disse. – Dantes era para mudar o mundo.

Calou-se; depois o seu olhar iluminou-se, e acrescentou:

– Hoje é para que o mundo não me mude.

(Conto da tradição judaica)

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Rui Vaz
#16

O CÁGADO E OS PÁSSAROS
 

Por causa da seca, reina uma grande fome no país dos animais. As ervas estão amarelas e secas, as árvores perderam os seus frutos e nada mais cresce nos campos; nem sequer se ouve o cantar do rio. Todos os animais sofrem com a fome; vão e vêm pela floresta, procurando alimentar-se de insectos e grãos.

Apenas os pássaros estão grandes e gordos, parecendo muito felizes da vida. Com efeito, graças às suas asas, é-lhes possível voar até longínquas regiões onde o período das chuvas já passou e as colheitas já foram iniciadas; várias vezes por mês, eles viajam até lá e, alguns dias depois, regressam à terra.

Levado pela fome, o cágado quer saber onde é que eles vão assim em cada viagem, na esperança de também lá poder ir. Aproximando-se deles, diz-lhes:

– Meus queridos pássaros, como vocês estão belos! As vossas penas estão limpas e lisas. Que belo ar saudável! Poderiam ajudar-me? Onde é que vocês vão todas as semanas?

– Pobre cágado! A ti, que não tens asas e que és tão lento, podemos contar-te tudo porque não tens qualquer hipótese de lá chegar. Nós encontrámos uma bela região onde há comida em abundância.

– Meus amigos – diz o cágado – levem-me convosco!

– Nós não nos importávamos de tentar – respondem os pássaros –, mas será isso possível?

O cágado reflecte alguns instantes e depois diz:

– Escutem, tive uma ideia: vou procurar um pau que irei morder pelo meio e apertar fortemente na boca. Seguidamente, bastará que dois de vocês peguem em cada uma das pontas do pau com as patas e assim poder-me-ão levar convosco para essa maravilhosa região. De acordo?

Os pássaros hesitam e, finalmente, acabam por aceitar. Chega o dia da partida. O cágado agarra o meio do pau com a boca, depois os grandes pássaros pegam em cada uma das pontas e o cágado eleva-se nos céus com os seus amigos.

Após uma longa viagem, chegam finalmente a essa famosa região. E existem, com efeito, muitas coisas para comer: nozes de palma, inhame cozido, carne assada e toda a espécie de frutos. Todos estão com um óptimo apetite, principalmente o cágado que, além do mais, é muito glutão. E come tanto e tão bem que a sua carapaça se torna demasiado estreita para conter o corpo. E também ele se torna muitíssimo pesado.

Os pássaros decidem, então, regressar. Gera-se uma discussão para saber quem é que irá levar o cágado desta vez. Já ninguém o quer transportar, a ele e ao seu pau, porque todos acham que pesa muito mais agora do que à ida.

– Meus amigos, não me abandonem! – suplica o cágado. – Vocês não podem deixar-me aqui sozinho, nesta região desconhecida. Levem-me convosco.

Cedendo ao seu pedido, dois pássaros acabam finalmente por pegar no pau e elevam-se nos ares, levando consigo o cágado. De início, como todos os pássaros estão felizes por voltar, põem-se a cantar, salvo os dois que carregam o cágado. Estes voam com dificuldade e começam a ficar cada vez mais para trás. Fatigados, começam mesmo a perder altura.

Um deles diz então ao cágado:

– Oh cágado, não estás contente por ires assim a voar pelos ares, de barriga cheia e sem te cansares? Porque é que não cantas connosco?

Com efeito, o cágado sente-se tão feliz que, esquecendo a sua situação, abre a boca para cantar e cai em direcção à floresta.

Os pássaros, muito distraídos a cantar, continuam o seu caminho, agora mais leves, até à sua terra. E só ao chegarem de novo ao país, fingiram aperceber-se do desaparecimento do cágado. Mas o que podem eles agora fazer para o encontrar?

(Conto tradicional da África)

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Rui Vaz
#17

A SERPENTE DE OLUMO
 

Um jovem, chamado Ayobami, vivia feliz na sua aldeia até ao momento em que, tendo atingido a idade adequada, decidiu, com o consentimento dos pais, arranjar mulher e casar.

Ayobami tinha duas amigas que já conhecia há muito tempo e com as quais passara toda a sua infância: a mais nova chamava-se Olu, a outra Yemesi. Ayobami queria absolutamente casar-se com uma das duas, mas não sabia qual delas escolher. Elas eram muito diferentes uma da outra, mas igualmente belas.

Pelo seu lado, as duas jovens amavam Ayobami. O homem era bom trabalhador e excelente caçador; possuía o sentido da justiça, sendo respeitado em toda a aldeia e bastante conhecido nos arredores. Ayobami era rico e bem constituído; teria podido muito bem casar com as duas raparigas ao mesmo tempo; mas a tradição não o permitia. Não conseguindo decidir-se, viam-no ficar longas horas sentado diante da sua cabana, a examinar as vantagens que teria em se casar com uma ou com outra. Quando julgava ter decidido e se levantava para ir anunciar a boa nova a seus pais, pensava imediatamente nas qualidade da outra e voltava a hesitar.

As duas jovens, pelo seu lado, rivalizavam em gentileza e beleza, não estando nenhuma delas disposta a ceder o seu lugar à outra. A última palavra cabia, pois, a Ayobami; precisava, a todo o custo, de saber qual das duas raparigas o amava mais.

Uma tarde, enquanto as duas raparigas estavam sentadas ao pé de Ayobami, estando este a reflectir nesse problema, uma serpente transparente saiu da floresta de Olumo, uma das colinas da região de Abeokuta. Tinha à cabeça três enfeites, e todo o seu corpo, extremamente comprido, fumegava ligeiramente ao deslizar em silêncio por entre as ervas. Quando chegou perto da fogueira, ergueu-se sobre a cauda e dançou por instantes, enquanto as chamas brilhavam nos seus olhos vermelhos. Todos estes sinais lhe davam uma aparência mágica, e assim toda a gente reconheceu nela uma serpente enfeitiçado e sagrada.

Ayobami, que estava de costas para a serpente, não a viu chegar; e quando as duas raparigas finalmente a avistaram, já era demasiado tarde. Gritaram ao mesmo tempo quando a serpente mordeu Ayobami na coxa, antes de desaparecer na noite. Ela cumprira assim a missão que os deuses lhe tinham confiado.

Em breve, Ayobami foi obrigado a ir deitar-se no interior da sua cabana. As duas jovens despertaram então toda a aldeia. Foram procurar o feiticeiro que, reconhecendo nisso um sinal dos deuses, não quis intervir. As velhas mandaram, então, ferver imediatamente umas ervas e uns pós, que puseram seguidamente na ferida, mas sem sucesso. Tudo foi tentado para salvar a vida de Ayobami; contudo, algumas horas depois, este acabou por morrer, sem sequer ter voltado a abrir os olhos e, sobretudo, sem ter chegado a dizer qual das duas jovens preferia.

Ambas se puseram então a chorar a morte do seu amigo. De manhã, Olu, a mais nova, levantou-se e proferiu as seguintes palavras:

– Sem a existência de Ayobami, a minha vida já não tem sentido. Quando o fogo morre, o fumo desaparece com ele. Não posso viver sem a sua presença. Assim, vou hoje juntar-me a ele na morte.

E, antes que alguém a tivesse podido impedir, pôs-se a correr através do mato. Encontrou a pista da serpente enfeitiçada, foi ter com ela e, por seu turno, fez com que ela a mordesse. Olu tombou por terra, caindo entre as ervas, e morreu pouco depois, julgando estar aí todo o preço do seu amor.

Yemesi não sabia o que fazer. Reflectiu alguns instantes, e depois, de súbito, decidiu-se. Entrou na cabana de seu pai, pegou na grande catana pendurada numa das paredes, e seguiu igualmente a pista da serpente. Quando a apanhou, e no momento em que erguia a arma para lhe cortar a cabeça, a serpente ergueu-se à sua frente e disse-lhe:

– Yemesi, não me mates! Se me deixares viver, ajudar-te-ei a salvar Ayobami.

A jovem aceitou e a serpente deu-lhe, então, dois saquinhos, um contendo um pó negro, o outro um pó branco:

– Pega nestes dois sacos e põe-te em cima do cadáver de Ayobami. Fecha os olhos e lança o pó negro para muito longe, na direcção do sol nascente, e o pó branco também para muito longe, na direcção do sol poente.

Yemesi seguiu os conselhos da serpente, e, de imediato, Ayobami e Olu foram misteriosamente ressuscitados.

Ayobami não hesitou mais e escolheu aquela que devia ser sua esposa para toda a vida.

Caro leitor, se fosses Ayobami, qual das duas jovens terias escolhido: aquela que lhe provou o seu amor morrendo com ele, ou aquela que lhe voltou a dar a vida?

(Conto tradicional da Angola)

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Rui Vaz
#18

O HOMEM QUE NÃO QUERIA MORRER
 

Há muito tempo atrás, vivia um homem chamado Sentaro. O sobrenome desse homem significava “Milionário”, embora ele não fosse tão rico assim, mas também estava muito longe de ser pobre. Sentaro tinha herdado uma pequena fortuna do pai e vivia confortavelmente com esse dinheiro. Durante anos, passou o tempo de forma descuidada, sem nunca pensar em trabalhar, até ao seu 32º aniversário.

E aí, um dia, sem qualquer motivo especial, começou a reflectir como as coisas vivas adoecem e morrem. A ideia de adoecer ou de morrer deixou Sentaro muito preocupado e infeliz.

– Eu queria viver, até ter quinhentos ou seiscentos anos de idade, e não quero ter doenças – disse para si mesmo. –  A vida é muito curta.

Sentaro começou a pensar se talvez não seria possível, de alguma forma, em algum lugar, prolongar a vida pelo tempo que quisesse. Depois de muito cismar, concluiu que uma forma de prolongar a vida seria viver como um monge, de uma maneira simples e frugal a partir de agora. Afinal, muitas histórias antigas falavam de imperadores que chegaram a viver milhares anos! E havia uma mulher, a princesa de Yamato, que se dizia ter vivido para além dos quinhentos anos de idade.

Sentaro também tinha muitas vezes escutado a famosa história do rei chinês chamado Shin-no-Shiko, que foi um dos governantes mais poderosos da história chinesa. Foi ele quem construiu todos os grandes palácios da China e também quem mandou construir a Grande Muralha da China. Shin-no-Shiko tinha tudo o que uma pessoa poderia querer na vida; mas, apesar de toda a sua felicidade, sorte, luxo e esplendor da corte, e além da sabedoria dos seus conselheiros e da glória do seu reinado, o rei vivia infeliz. E porquê? Porque sabia que, um dia, iria morrer, assim como todas as pessoas, e deixar para trás tudo o que construiu. Ele sabia que essa é a natureza de todas as coisas vivas.

Então, quando Shin-no-Shiko ia dormir à noite, e quando se levantava de manhã, e mesmo enquanto passava o seu dia, o pensamento da morte acompanhava-o sempre. Ele simplesmente não conseguia fugir dessa obsessão e pensar noutra coisa. Ah, mas talvez deixasse de pensar nisso se ao menos pudesse encontrar o famoso Elixir da Vida Eterna. Aí sim, finalmente seria feliz.

O rei decidiu então convocar uma reunião com os seus cortesãos e perguntou a todos se alguém seria capaz de encontrar o Elixir sobre o qual ele tantas vezes tinha lido e ouvido falar. Um velho cortesão, chamado Jofuku, disse que, longe, muito longe, do outro lado do mar, havia um país chamado Horaizan, onde viviam eremitas. Eles possuíam o segredo do “Elixir da Vida Eterna”. E quem bebia dessa maravilhosa bebida realmente vivia para sempre!

O rei ordenou que Jofuku partisse para a terra de Horaizan, encontrasse os eremitas e lhe trouxesse um frasco do elixir mágico. Ele deu a Jofuku o que tinha de melhor, equipou-o e carregou-o com quantidades enormes de tesouros e pedras preciosas para que o seu enviado os levasse de presente aos eremitas do outro lado do mar.

Jofuku navegou para a terra de Horaizan, mas nunca voltou. E é por isso que, desde então, se diz que o Monte Fuji é a lendária terra Horaizan e o lar dos eremitas que tinham o segredo do elixir da vida eterna. E assim, Jofuku é adorado até hoje como o deus patrono do Monte Fuji.

Foi por causa dessa história sobre o rei Shin-no-Shiko que Sentaro decidiu partir para encontrar os eremitas e, se pudesse, tornar-se um deles, a fim de obter o segredo da vida eterna. Sentaro foi avisado que esses eremitas não só viviam no Monte Fuji, mas que habitavam os picos mais altos das montanhas.

Então, deixou a sua casa ao cuidado dos parentes e começou a grande aventura. Ele viajou com espírito forte, subindo ao topo dos picos mais altos, sem quase descansar, mas nunca encontrou sequer um eremita que fosse. Depois de muitos meses sem encontrar ninguém, Sentaro pensou como seria tolice perder mais tempo a procurar os eremitas dessa maneira; e assim, decidiu ir de imediato para o santuário do patrono Jofuku, que é adorado como o deus padroeiro dos eremitas no sul do Japão.

Quando chegou ao santuário, Sentaro rezou durante sete dias, pedindo a Jofuku que lhe mostrasse o caminho para um eremita que lhe poderia dar o que ele tanto queria encontrar: a vida eterna. Exatamente à meia-noite do sétimo dia desde que Sentaro começou a sua oração, a porta do santuário abriu-se e o próprio Jofuku apareceu numa nuvem luminosa. E, chamando Sentaro para se aproximar, Jofuku falou assim:

– Sentaro, o teu desejo é muito egoísta e não pode ser concedido. Tu pensas que gostarias de ser um eremita para encontrar o Elixir da Vida Eterna. Mas sabes quão difícil é a vida de um eremita? Ele só pode comer frutos e bagas e casca de pinheiro e deve separar-se do mundo para que o seu coração se torne tão puro como o ouro e livre de todos os desejos terrestres. E depois de seguir essas regras rígidas, o eremita deixa de sentir fome ou frio ou calor, e o seu corpo torna-se tão leve que ele pode andar sobre a água sem molhar os pés. E sabes quão difícil é viver para sempre? Tu, Sentaro, gostas de viver bem e com conforto. E nem és como um homem comum, pois és demasiado ocioso e mais sensível ao calor e ao frio do que a maioria das pessoas. Nunca serias capaz de andar descalço ou usar apenas uma roupa fina no inverno! Achas que terias paciência ou resistência para viver a vida de um eremita? E para sempre? Mas, em resposta à tua oração, eu decidi que te vou ajudar de uma outra maneira. Vou enviar-te para uma terra distante, o país da Vida Perpétua, onde a morte nunca pode chegar – e onde as pessoas vivem para sempre! Não é o que tu queres?

Jofuku colocou então na mão de Sentaro um pequeno origami em forma de garça. Disse a Sentaro para se sentar de costas e deixar que a ave o levasse até esse estranho país mágico. Sentaro obedeceu maravilhado e sem dizer nada. De repente, a garça cresceu o suficiente para Sentaro a montar confortavelmente. Depois, o origami abriu as asas, ergueu-se no ar e voou sobre as montanhas até ao mar.

A princípio, Sentaro ficou bastante assustado; mas, aos poucos, foi-se acostumando ao vôo veloz no ar. E assim percorreram milhares de quilómetros. A garça nunca parava para descansar ou comer, mas como era um pássaro de papel, sem dúvida não precisava de nenhum alimento, e – o que era mais estranho ainda – Sentaro também já não sentia necessidade de comer ou dormir.

Depois de vários dias, os dois chegaram a uma ilha. A garça desceu para o solo e, logo que Sentaro desceu das costas do pássaro, o origami em forma de garça dobrou-se por vontade própria, voltou ao tamanho normal e voou para o bolso de Sentaro.

O homem olhava ao redor maravilhado, curioso para ver como era o país da Vida Perpétua. Andou primeiro pelos campos e depois pela primeira cidade que encontrou. Tudo era muito estranho e diferente da sua própria terra, no Japão. Mas tanto a terra como o povo pareciam prósperos, e assim ele decidiu que seria bom ficar lá e alojar-se num dos hotéis.

O proprietário do hotel era um homem gentil e, quando Sentaro lhe disse era um forasteiro e que tinha acabado de chegar para morar lá, o homem prometeu organizar tudo o que fosse necessário com o governador da cidade sobre a permanência de Sentaro ali. Para sempre. O homem até encontrou uma casa para o seu hóspede e, assim, Sentaro satisfez o seu grande desejo e tornou-se finalmente um residente no país da Vida Perpétua.

Nenhum homem jamais havia morrido naquele lugar, e a doença era algo desconhecido aí. No passado, sábios e comerciantes tinham vindo da Índia e da China e contavam aos habitantes da ilha sobre um outro belo país chamado Paraíso, onde a felicidade, a boa-aventurança e o contentamento enchem o coração de todos os homens. Mas existe um senão: os portões do Paraíso só podem ser alcançados por aqueles que têm uma morte digna, o que só se consegue depois de viver também uma vida digna. Essa informação foi transmitida por eras de geração a geração – mas ninguém sabia exatamente o que era a morte, exceto que era necessária para levar alguém ao Paraíso.

Ao contrário de Sentaro e das outras pessoas comuns, em vez de ter um grande medo da morte, todas as pessoas do país da Vida Perpétua, fossem ricas ou fossem pobres, e tanto os homens como as mulheres, todos queriam morrer como se fosse algo bom e até mesmo desejável. O motivo é que já estavam cansados das suas longas, longas vidas e desejavam ir para a terra feliz do contentamento chamada Paraíso, acerca da qual os sacerdotes lhes haviam falado há muitos séculos atrás.

Tudo estava de pernas para o ar no país da Vida Eterna. Enquanto Sentaro desejava escapar da morte e viver para sempre, os próprios habitantes do país da Vida Eterna, condenados a nunca morrer, consideravam uma felicidade encontrar a morte. O que Sentaro sabia ser venenoso, por exemplo, essas pessoas comiam como se fosse boa comida. E todas as coisas às quais Sentaro estava acostumado como boa comida, essas pessoas rejeitavam. Os habitantes de lá rejeitavam também tudo o que fosse bom para a saúde. Sempre que chegavam comerciantes de outros países, por exemplo, os ricos corriam para eles ansiosos por comprar venenos. E engoliam-nos rapidamente, esperando que a morte viesse logo, para poderem ir para o Paraíso. Mas os venenos, que eram mortais noutras terras, não tinham efeito nesse lugar estranho, e as pessoas que os engoliram com a esperança de morrer só descobriram que, em pouco tempo, se sentiam melhor de saúde, em vez de pior.

Os ricos teriam dado todo o seu dinheiro e todos os bens se pudessem encurtar as suas vidas por duzentos ou trezentos anos. Mas, sem nenhuma mudança, viver para sempre parecia cansativo e triste para esse povo.

Sentaro não entendia aquilo. Estas pessoas não são normais, pensava ele. E dizia para si mesmo que nunca se cansaria de viver e que considerava um absurdo alguém desejar a morte. Sentaro era, de facto, o único homem feliz na ilha. Pela sua parte, ele queria viver milhares de anos e aproveitar a vida ao máximo. Estabeleceu no país um bom negócio e, por enquanto, nem sonhava voltar para a sua terra natal.

Com o passar dos anos, no entanto, as coisas não foram tão tranquilas como no início. Ele teve fortes perdas nos negócios e, várias vezes, alguns casos deram para o torto com os vizinhos. Isso causou-lhe um grande aborrecimento. Discussões, transações financeiras, problemas, coisas a resolver, começaram a parecer repetitivas e entediantes depois de quinhentos anos.

O tempo passou como o vôo de uma flecha, pois ele estava ocupado de manhã até à noite. Trezentos anos escoaram-se dessa maneira monótona e, finalmente, ele começou a cansar-se da vida neste país, e desejava ver a sua terra e o seu antigo lar. Por mais pudesse morar aqui, viver sempre seria a aposta; então, não era cansativo ficar num só lugar para sempre?

Sentaro, no seu desejo de fugir do país da Vida Perpétua, lembrou-se de Jofuku, que já o ajudara antes quando desejava escapar da morte – e orou ao santo para trazê-lo novamente de volta à sua terra. Assim que acabou de rezar, a garça de papel saiu do bolso. Sentaro ficou surpreendido ao ver que ela permanecera intacta após centenas de anos. Mais uma vez, o pássaro cresceu até ficar bastante grande para ele o montar. Então, a garça abriu as asas e voou rapidamente através do mar, na direcção do Japão.

Tal era a natureza do desejo de Sentaro, que, quando olhou para trás, se arrependeu de tudo o que havia deixado pelo caminho. Tentou parar o pássaro, mas os seus esforços foram em vão. A garça manteve a sua rota durante milhares de quilómetros através do oceano. De repente, veio uma tempestade, e a maravilhosa garça de papel ficou molhada, amassada e caiu ao mar. Sentaro caiu também! Muito assustado com a ideia de se afogar, gritou bem alto para que Jofuku o salvasse.

– Jofuku! Jofuku!

Ele olhou à sua volta, mas não havia navios à vista. Engoliu uma grande quantidade de água do mar, o que apenas piorou a sua situação miserável. Enquanto lutava para se manter à tona, viu um tubarão monstruoso a nadar na sua direcção. Quando o tubarão se aproximou, abriu a boca enorme pronta para o devorar. Sentaro estava paralisado de medo, agora que sentia o seu fim tão próximo e gritou o mais alto que pôde:

– Jofuku!!!

E eis que Sentaro foi despertado pelos seus próprios gritos. Acordou e descobriu que tinha adormecido no santuário de Jofuku, e que todas as suas extraordinárias e terríveis aventuras tinham sido apenas um sonho selvagem. Com o susto, ficou cheio de suores frios e estava totalmente perplexo. De repente, uma pessoa entrou no santuário. Por um momento, Sentaro até pensou que fosse Jofuku, mas era apenas um eremita. O homem veio ter com ele e disse:

– Eu fui enviado por Jofuku, que – em resposta à tua oração –permitiu em sonhos que visses a terra da Vida Perpétua. Mas como te cansaste de morar lá, pediste que te fosse permitido regressar à tua terra natal para poderes morrer. Jofuku, para te testar, permitiu que caísses no mar e depois enviou um tubarão para te engolir. O teu desejo de morrer não era real, pois mesmo naquele momento gritaste bem alto por ajuda. Também é inútil quereres tornar-te um eremita ou encontrar o Elixir da Vida Eterna, Sentaro. Essas coisas não são para ti – a tua vida não é suficientemente austera. É melhor voltares ao teu lar paterno e viveres uma vida boa e diligente e útil. Nunca deixes de comemorar os aniversários dos teus antepassados e dos teus filhos. Respeita o teu dever de providenciar o futuro dos teus filhos. Dese modo, viverás até uma boa velhice e serás feliz e lembrado e somente assim chegarás ao país chamado Paraíso. Compreendes agora? Ninguém chega à felicidade no Paraíso, apenas por morrer, Sentaro. É preciso antes viver bem, dignamente, e ser útil à sua família e à sua comunidade. E, para viver bem, é necessário desistir do desejo vaidoso de escapar da morte, pois ninguém pode fazer isso, e agora certamente já descobriste que mesmo quando esse desejo é concedido, ele não traz necessariamente a felicidade.

Logo que acabou o seu discurso, o eremita foi-se embora, e Sentaro levou a lição a sério. Regressou à sua antiga casa e, desistindo de todos os seus velhos desejos tolos, deu o seu máximo para viver uma vida boa e útil a partir desse momento. E Sentaro e a sua família viveram uma vida digna.
 

(Conto tradicional do Japão)

Last update on October 1, 6:57 pm by Rui Vaz.
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Rui Vaz
#19

A HISTÓRIA DE KIRZAI
 

Há muito, muito tempo havia um jovem mercador chamado Kirzai, cujo negócio o obrigou a deslocar-se um dia à vila de Tchigan, a duzentos quilómetros de distância. Normalmente, Kirzai seguiria a rota da montanha, o que lhe permitiria fazer a maior parte da viagem protegido do Sol. Porém, desta vez Kirzai estava pressionado pelo tempo, era-lhe urgente chegar a Tchigan o mais cedo possível. Foi assim que decidiu cortar a direito pelo deserto do Syr Darya.

O Syr Darya é um deserto conhecido pela intensidade do sol e muito poucos se aventuram a atravessá-lo. Apesar disso, Kirzai abasteceu de água o camelo, encheu os cantis e partiu de viagem.

Várias horas depois de ter partido, o vento do deserto começou a levantar-se. Kirzai queixou-se com os seus botões e fez o camelo acelerar o passo. Subitamente, parou estupefacto. Cerca de cem metros à frente, levantara-se um gigantesco tufão. Kirzai nunca tinha visto nada assim. Havia uma estranha luz púrpura em torno dele e até a cor da própria areia parecia ter mudado.

Kirzai hesitou. Deveria fazer um desvio para evitar esta estranha aparição ou continuar sempre em frente? Ele tinha muita pressa e sentiu que não havia tempo para tomar o caminho mais longo; por isso, baixou a cabeça, encolheu os ombros e seguiu em frente. Para sua surpresa, assim que entrou na tempestade tudo se tornou mais calmo. O vento já não lhe fustigava o rosto tão impiedosamente. Sentiu-se bem por ter tomado a decisão correcta.

Mas de súbito foi compelido a parar de novo. Alguns passos mais à frente, um homem estendido no chão dormitava junto a um camelo agachado. Kirzai desmontou para ver o que se passava. A cabeça do homem estava embrulhada num lenço, mas Kirzai podia ver que ele era bastante idoso. O velho abriu os olhos, fixou Kirzai longamente e, depois, perguntou num murmúrio rouco:

– És... és tu?

Kirzai riu-se e abanou a cabeça.

– O quê? Não me digas que sabes quem eu sou! Será que a minha fama se espalhou pelo deserto do Syr Darya? E tu, velho, quem és tu?

O homem não respondeu. Kirzai continuou:

– De qualquer forma, não estás nada bem. Para onde vais?

– Para Givah – disse o velho, com um suspiro. – Mas já não tenho água.

Kirzai reflectiu. Claro que podia dar ao velho parte da água que levava, mas, se o fizesse, arriscava-se a ficar sem água para si. Por outro lado, não podia simplesmente abandoná-lo. Um homem não é um cão que se deixa morrer sem olhar para trás.

Os meus planos que vão para o diabo, pensou Kirzai. Se precisar de mais água, só preciso de encontrar o meu caminho através das montanhas. Uma vida humana conta mais do que um encontro de negócios!

Ajudou pois o homem a beber uns golos de água, encheu-lhe um dos cantis e ajudou-o a montar no camelo.

– Segue sempre em frente por ali – disse-lhe, apontando com o dedo – e chegarás a Givah dentro de duas horas.

O velho fez um sinal de reconhecimento com as mãos e, antes de partir, fixou Kirzai e balbuciou estas estranhas palavras:

– Um dia o deserto te recompensará.

Depois, esporeou o camelo na direcção que Kirzai lhe indicara. Este continuou a sua viagem. A oportunidade que o esperava em Tchigan estava, sem dúvida, perdida, mas sentia-se em paz consigo mesmo.

O tempo passou. Trinta anos mais tarde, o negócio de Kirzai mantinha-o em constante deslocação entre Givah e Tchigan. Não enriquecera, mas o que ganhava era o suficiente para proporcionar uma boa vida à sua família. Kirzai não pedia mais do que isso.

Um dia, quando vendia peles no mercado de Tchigan, vieram dizer-lhe que o seu filho estava gravemente doente. Era urgente voltar para casa imediatamente. Kirzai não hesitou. Lembrou-se do atalho do deserto que havia percorrido trinta anos atrás. Deu água ao camelo, encheu os cantis e partiu. Durante o caminho lutou contra o tempo, esporeando ininterruptamente o camelo. Não parou nem tão-pouco abrandou enquanto bebia água, e foi por isso que ocorreu o acidente. O cantil caiu-lhe subitamente das mãos e, antes que pudesse baixar-se para o recuperar, a água derramou-se e desapareceu na areia. Kirzai amaldiçoou os céus. Apenas com um cantil cheio era-lhe impossível atravessar o deserto. Mas, pensando no filho, o velho disse para si mesmo:

– Tenho de conseguir. Vou conseguir.

O sol do deserto do Syr Darya é impiedoso, não se compadece com o porquê de um homem desafiar os seus raios. Brilha com violência, sempre com o mesmo poder e intensidade. Kirzai apercebeu-se rapidamente de que havia cometido um grave erro. Tinha a língua seca e esponjosa e ardia-lhe a pele. O único cantil que lhe restava já estava vazio. E ainda por cima, para sua desgraça, viu que se estava a levantar uma tempestade de areia. Kirzai embrulhou a cabeça no lenço, fechou os olhos e deixou que o camelo o conduzisse para onde quisesse. Já não tinha consciência de nada.

Um gigantesco tufão levantou-se à sua frente. Irradiava uma suave luz púrpura, mas Kirzai continuava inconsciente e não viu nada. O camelo entrou no tufão, avançou alguns passos e sentou-se abruptamente. Kirzai desequilibrou-se e caio ao chão.

– É o fim – pensou. – O meu filho nunca mais me verá.

No entanto, de súbito, soltou um grito de alegria. Um homem montado num camelo dirigia-se para ele. Porém, à medida que o homem se aproximava, a alegria de Kirzai transformava-se em estupefacção.

Este homem desmontava agora o camelo e Kirzai conhecia-o! Reconhecia as suas roupas jovens, o seu rosto jovem, reconhecia até o camelo que ele montava. Um camelo que Kirzai comprara há muitos anos em troca de dois vasos muito valiosos. Kirzai tinha a certeza: o jovem que vinha em seu auxílio era ele próprio tal como era há trinta anos atrás.

– És... és tu? – perguntou Kirzai, com um suspiro rouco. O jovem olhou para ele e riu-se.

– O quê? Não me digas que sabes quem eu sou! Será que a minha fama se espalhou pelo deserto do Syr Darya? E tu, quem és?

Kirzai não respondeu. Não sabia o que fazer. Devia dizer ao jovem quem era ou não dizer nada? Entretanto o jovem prosseguiu:

– Em todo o caso, não estás nada bem. Para onde vais?

– Para Givah – respondeu Kirzai. – Mas já não tenho água.

Kirzai viu que o jovem estava a pesar a situação e sabia exactamente o que lhe ia no pensamento: perguntava-se se devia ajudar Kirzai ou seguir o seu caminho. Mas Kirzai também sabia que a decisão acabaria por tomar e sorriu ao ver o jovem dar-lhe água para beber. Depois o jovem encheu-lhe o cantil vazio, ajudou-o a montar no camelo e, apontando, disse:

– Segue sempre em frente e chegarás a Givah dentro de duas horas.

O velho Kirzai olhou longamente para o jovem que ele um dia havia sido e fez-lhe um sinal de reconhecimento. Gostaria de ter podido conversar com o jovem sobre muitas coisas, mas só conseguiu encontrar estas palavras:

– Um dia o deserto te recompensará.

E, depois, apressou-se a regressar a Givah, onde o filho o aguardava.

Kirzai tornou-se num homem muito sábio, respeitado por todos. E, quando contava esta estranha história, todos os que a ouviam acreditavam nele. A partir de então, o deserto do Syr Darya passou a ser conhecido pelo nome de Samovstrecha, que significa:

O deserto onde cada um se encontra a si próprio.

(Conto tradicional da Ásia Central)

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Rui Vaz
#20

O MÉDICO E A MORTE
 

Existiu, há muito tempo, um médico famoso que, conhecendo de perto a vida e a morte, tinha um desejo infinito de viver. A sua vontade em escapar ao destino inevitável de qualquer ser humano era tal, que ele pensou e meditou durante vários anos, até conseguir achar uma solução que lhe permitisse iludir a Morte quando ela o viesse buscar.

E assim, ao sentir a aproximação inexorável do seu último momento, num assombroso prodígio de técnica, talvez baseado nas histórias fantásticas de robots humanos e Frankensteins, o sábio fabricou três réplicas perfeitas de si próprio, qual clones humanos absolutamente indistinguíveis uns dos outros. E, após concluir o seu maravilhoso trabalho, impante de orgulho e com o coração transbordante de esperança e alegria, o cirurgião ficou à espera da temível inimiga.

Quando a Morte verificou na sua agenda que o nome do médico estava na lista dos seres humanos cuja existência devia chegar ao seu termo natural, dirigiu-se à morada indicada e entrou sem sequer se anunciar, como sempre gosta de fazer. É não só uma visita inesperada, mas também tantas vezes temida e indesejável. Mas, desta vez, o idoso cirurgião esperava-a sem temor nem ansiedade. Ele sabia que o seu labor tinha sido coroado a 100%, mas precisava ainda de passar o teste definitivo: enganar, pela primeira e talvez única vez na história da humanidade, essa velha sem idade cuja foice tudo e todos ceifa indiscriminadamente, desde os tempos imemoriais e até ao mais longínquo futuro sem memória.

E, na verdade, quando a Morte entrou no quarto ficou pasmada perante o quadro incrível que se lhe deparou: quatro médicos todos iguais, aparentemente vivos e impecáveis na excelência da sua mútua replicação. Após contemplá-los em silêncio, meditou um pouco e sorriu intimamente, certa de que acabaria por descobrir qualquer defeito na estratégia admirável da sua vítima.

Então, com a sua longa experiência da natureza humana, conhecedora de todas as fraquezas e pequenos defeitos dos homens, a Morte voltou-se para as quatro figuras e disse:

– Doutor, tenho de admitir que fizeste um magnífico trabalho. Nunca vi nada igual nos infinitos séculos durante os quais tenho cumprido a odiosa missão que me foi delegada. Mereces, sem dúvida, os maiores elogios e eu dou-te, sinceramente, os meus parabéns. Pena é que, mesmo assim, tenhas de me acompanhar na tua viagem final. Na realidade, a tua obra estaria absolutamente perfeita se não fosse um pequenino erro que cometeste ao fabricar todas estas réplicas admiráveis.

Então, o médico, surpreendido e espicaçado por este reparo da Morte que punha em causa todo o seu esforço, não se conteve e perguntou:

– Impossível! Que erro poderia eu ter cometido, se tu mesma estás abismada e confundida, sem saber qual destes quatro corpos é aquele que tens de levar contigo?

E a Morte, sorridente, respondeu:

– Esse foi o teu erro, meu caro paciente! Eu sabia que eras demasiado orgulhoso para ficar calado se eu te apontasse alguma falha. Realmente, não havia nenhuma, mas agora já cometeste o engano irreparável.

E foi assim que o médico teve de se curvar perante a astúcia da Morte, à qual nenhum ser humano ainda escapou nem jamais escapará.
 

(Conto tradicional da Índia)

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