Rui Vaz

O Aleph
 

William Blake costumava dizer: “Podemos ver o infinito num grão de areia, e a eternidade numa flor”. Na verdade, basta um simples momento de harmonia interior para que isso aconteça.

O grande problema reside aí: quase nunca nos permitimos atingir este estado – o momento presente em toda a sua glória.

Às vezes, ele se apresenta de maneira completamente casual. Você está andando numa rua, senta-se em determinado lugar, e de repente o universo inteiro está ali. A primeira coisa que surge é uma imensa vontade de chorar – não de tristeza nem de alegria, mas de emoção. Você sabe que está compreendendo algo, mesmo que não consiga explicar sequer para si mesmo.

Na tradição mágica, este tipo de perceção é conhecido como “mergulhar no Aleph”. O ser humano tem uma gigantesca dificuldade em concentrar-se no momento de agora; está sempre pensando no que fez, em como poderia ter feito melhor, quais as consequências dos seus atos, por que não agiu como devia ter agido. Ou então, preocupa-se com o futuro, o que vai fazer amanhã, que providências devem ser tomadas, qual o perigo que o espera na esquina, como evitar o que não deseja e como conseguir o que sempre sonhou.

Portanto, você começa a interrogar-se: existe realmente algo errado?

Sim, existe. O nome disso é rotina. Você acha que existe porque está infeliz. Outras pessoas existem em função dos seus problemas; vivem falando compulsivamente a respeito deles – problemas com filhos, maridos, escola, trabalho, amigos.

Não param para pensar: eu estou aqui. Sou resultado de tudo que aconteceu e acontecerá, mas estou aqui. Se existe algo errado que fiz, posso corrigir ou pelo menos pedir perdão. Se existe algo correto, isso me deixa mais feliz e conetado com o momento de agora.

Concentre-se no seu Aleph, e verá que um pouco de confiança na vida não faz nenhum mal – muito pelo contrário, irá permitir-lhe experimentar tudo com muito mais intensidade. Essas coisas que perturbam o seu verdadeiro encontro com a vida estão naquilo que você chama de “passado”, e aguardam uma decisão naquilo que você chama de “futuro”. Elas entorpecem, poluem, e não o deixam entender o presente. Trabalhar apenas com a experiência é repetir soluções velhas para problemas novos. Conheço muita gente que só consegue ter uma identidade própria quando começam a falar dos seus problemas. Porque estes problemas estão ligados ao que julgam ser “a sua história”.

O fundador da arte marcial conhecida como Aikido, Morihei Ueshiba, dizia:

“A busca da paz é uma maneira de rezar, que termina gerando luz e calor. Esqueça-se um pouco de si mesmo, saiba que na luz está a sabedoria, e no calor reside a compaixão. Ao caminhar por este planeta, procure notar a verdadeira forma dos céus e da terra; isso é possível se você não se deixar paralisar pelo medo, e decidir que todos os seus gestos e atitudes corresponderão àquilo que você pensa.”

Se você confiar na vida, a vida confiará em você.

(Guerreiro da Luz Online)

Last update on October 12, 3:52 pm by Rui Vaz.
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Rui Vaz
#26

A Segunda Chance
 

As Sibilas, feiticeiras capazes de prever o futuro, viviam na antiga Roma. Um belo dia, uma delas apareceu no palácio do imperador Tibério com nove livros; disse que ali estava o futuro do Império, e pediu dez talentos de ouro pelos textos. Tibério achou caríssimo e não quis comprar.

A sibila saiu, queimou três livros, e voltou com os seis restantes. “São dez talentos de ouro”, disse. Tibério riu, e mandou-a embora; como tinha coragem de vender seis livros pelo mesmo preço de nove?

A sibila queimou mais três livros e voltou para Tibério com os únicos três volumes que restavam: “Custam os mesmos dez talentos de ouro”. Intrigado, Tibério terminou por comprar os três volumes, e só pode ler uma pequena parte do futuro.

Estava a contar esta história para Mónica, minha agente e amiga, enquanto viajávamos de carro para Portugal. Quando terminei, dei-me conta que estávamos a atravessar Ciudad Rodrigo, na fronteira com Espanha. Ali, quatro anos antes, um livro me havia sido oferecido, e eu não comprei.

Na primeira viagem de divulgação dos meus livros na Europa, resolvera almoçar naquela cidade. Depois, fui visitar a catedral, e encontrei um padre. “Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui dentro”, disse ele. Gostei do comentário, conversamos um pouco, e ele guiou-me pelos altares, claustros, jardins interiores do templo. No final, ofereceu-me um livro que tinha escrito sobre a igreja; mas eu não quis comprar. Quando saí, senti-me culpado; sou escritor, e estava na Europa a tentar vender o meu trabalho – por que não comprar o livro do padre, por solidariedade? Mas esqueci o episódio, até aquele momento.

Parei o carro; não fora por acaso que eu me lembrara da história dos livros sibilinos. Encaminhamo-nos para a praça em frente à igreja, onde uma mulher olhava o céu.

– Boa tarde. Vim aqui encontrar um padre que escreveu um livro sobre esta igreja.

– O padre, que se chamava Stanislau, morreu faz um ano – respondeu ela.

Senti uma imensa tristeza. Por que não tinha dado ao padre Stanislau a mesma alegria que eu sentia quando via alguém com um dos meus livros?

– Foi um dos homens mais bondosos que conheci – continuou a mulher. – Vinha de uma família humilde, mas chegou a tornar-se um especialista em arqueologia; ajudou a conseguir para meu filho uma bolsa no colégio.

Contei a ela o que fazia ali.

– Não se culpe à toa, meu filho – disse. – Vá visitar de novo a catedral.

Achei que era um sinal, e fiz o que ela mandava. Havia apenas um padre num confessionário, esperando os fiéis que não vinham. Pediu que me ajoelhasse, mas disse que estava ali apenas comprar um livro sobre esta igreja, escrito por um homem chamado Stanislau.

Os olhos do padre brilharam. Ele saiu do confessionário e voltou minutos depois com um exemplar.

– Que alegria você ter vindo só por isso! – disse. – Sou irmão do padre Stanislau, e isto enche-me de orgulho! Ele deve estar no céu, contente por ver que o seu trabalho tem importância!

Paguei no livro, agradeci, ele abraçou-me. Quando eu já ia a sair, escutei sua voz.

– Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui dentro! – disse.

Eram as mesmas palavras que o padre Stanislau me dissera quatro anos antes. Há sempre uma segunda chance na vida.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#27

O Céu e o Inferno
 

Um homem, um cavalo e um cão caminhavam por uma estrada. Quando passavam perto de uma árvore gigantesca, um raio caiu, e todos morreram fulminados.

Mas o homem não percebeu que já havia deixado este mundo, e continuou a caminhar com os seus dois animais; às vezes, os mortos levam tempo para se dar conta da sua nova condição.

A caminhada era muito longa, monte acima, o sol era forte e eles ficaram suados e com muita sede. Precisavam desesperadamente de água. Numa curva do caminho, avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calcetada com blocos de ouro, no centro da qual havia uma fonte de onde jorrava água cristalina.

O caminhante dirigiu-se ao homem que guardava a entrada.

– Bom dia.

– Bom dia – respondeu o homem.

– Que lugar é este, tão lindo?

– Aqui é o Céu.

– Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede.

– O senhor pode entrar e beber água à vontade.

E o guarda indicou a fonte.

– O meu cavalo e o meu cão também estão com sede.

– Lamento muito, mas aqui não se permite a entrada de animais.

O homem ficou muito desapontado porque a sua sede era grande, mas ele não beberia sozinho; agradeceu e continuou adiante. Depois de muito caminharem, já exaustos, chegaram a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha, que se abria para um caminho de terra, ladeada de árvores.

À sombra de uma das árvores, um homem estava deitado, a cabeça coberta com um chapéu, possivelmente dormindo.

– Bom dia – disse o caminhante.

O homem acenou com a cabeça.

– Estamos com muita sede, o meu cavalo, o meu cão e eu.

– Há uma fonte naquelas pedras – disse o homem e indicando o lugar. – Podem beber à vontade.

O homem, o cavalo e o cão foram até à fonte e mataram a sede. Em seguida, voltaram para agradecer.

– Por sinal, como se chama este lugar?

– Céu.

– Céu? Mas o guarda do portão de mármore disse que lá era o céu!

– Aquilo não é o céu, aquilo é o inferno.

O caminhante ficou perplexo.

– Vocês deviam evitar isso! Essa informação falsa deve causar grandes confusões!

O homem sorriu:

– De forma alguma. Na verdade, eles nos fazem um grande favor. Porque lá ficam todos aqueles que são capazes de abandonar os seus melhores amigos.
 

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#28

O Pinheiro de St. Martin
 

Na véspera de Natal, o padre da igreja no pequeno vilarejo de St. Martin, nos Pirenéus franceses, preparava-se para celebrar a missa, quando começou a sentir um perfume delicioso. Era inverno, há muito as flores tinham desaparecido – mas ali estava aquele aroma agradável, como se a primavera tivesse surgido fora de tempo.

Intrigado, saiu da igreja para buscar a origem de tal maravilha, e foi dar com um rapaz sentado na frente da porta da escola. Ao seu lado, estava uma espécie de árvore de Natal dourada.

– Mas que beleza de árvore! – disse o pároco. – Ela parece ter tocado o céu, já que irradia uma essência divina! E é feita de ouro puro! Onde foi que a conseguiste?

O jovem não demonstrou muita alegria com o comentário do padre.

– É verdade que isto que levo comigo foi ficando cada vez mais pesado à medida que eu andava, as folhas ficaram duras. Mas não pode ser ouro, e estou com medo da reação dos meus pais.

O rapaz contou a sua história:

– Tinha saído hoje de manhã para ir até à grande cidade de Tarbes, com o dinheiro que a minha mãe me deu para comprar uma bela árvore de Natal. Acontece que, ao cruzar um povoado, vi uma senhora de idade, solitária, sem nenhuma família com quem comemorar a grande festa da Cristandade. Dei-lhe algum dinheiro para a ceia, pois estava certo que poderia conseguir um desconto na minha compra.

Ao chegar a Tarbes, passei diante da grande prisão, e havia uma série de pessoas à espera da hora da visita. Todas estavam tristes, já que passariam a noite longe dos seus entes queridos. Escutei algumas delas comentando que nem sequer tinham conseguido comprar um pedaço de torta. Na mesma hora, movido pelo romantismo da gente da minha idade, decidi que iria dividir o meu dinheiro com aquelas pessoas, que estavam precisando mais que eu. Guardaria apenas uma ínfima quantia para o almoço; o florista é amigo da nossa família, com certeza me daria a árvore, e eu poderia trabalhar para ele na semana seguinte, pagando assim a minha dívida.

Entretanto, ao chegar ao mercado, soube que o florista que conhecia não tinha ido trabalhar. Tentei de todas as maneiras conseguir alguém que me emprestasse dinheiro para comprar a árvore noutro lugar, mas foi em vão.

Convenci-me que conseguiria pensar melhor o que fazer, se estivesse com o estômago cheio. Quando me aproximei de um bar, um menino que parecia estrangeiro, perguntou se eu lhe podia dar alguma moeda, já que não comia há dois dias. Como imaginei que certa vez o menino Jesus deve ter passado fome, entreguei-lhe o pouco dinheiro que me sobrava, e voltei para casa. No caminho de volta, quebrei um galho de um pinheiro; tentei ajeitá-lo, cortá-lo, mas ele foi ficando duro como se feito de metal, e está longe de ser a árvore de Natal que a minha mãe espera.

– Meu caro – disse o padre – o perfume desta árvore não deixa dúvidas de que ela foi tocada pelos Céus. Deixa-me contar o resto desta história:

Assim que deixaste a senhora, ela imediatamente pediu à Virgem Maria, uma mãe como ela, que te devolvesse essa bênção inesperada. Os parentes dos presos convenceram-se que tinham encontrado um anjo, e rezaram agradecendo aos anjos pelas tortas que foram compradas. O menino que encontraste agradeceu a Jesus por ter a fome saciada.

A Virgem, os anjos e Jesus escutaram a prece daqueles que tinham sido ajudados. Quando quebraste o galho do pinheiro, a Virgem colocou nele o perfume da misericórdia. À medida que caminhavas, os anjos iam tocando as folhas e transformando-as em ouro. Finalmente, quando tudo ficou pronto, Jesus olhou o trabalho, abençoou-o e, a partir de agora, quem tocar esta árvore de Natal terá os seus pecados perdoados e seus desejos atendidos.

E assim foi. Conta a lenda que o pinheiro sagrado ainda se encontra em St. Martin; mas a sua força é tão grande que todos aqueles que ajudam o seu próximo na véspera de Natal, não importa quão longe estejam do pequeno vilarejo dos Pirenéus, são abençoados por ele.

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Rui Vaz
#29

O Vitríolo ou a Amargura
 

No meu livro “Veronika decide morrer”, que se passa num hospital psiquiátrico, o diretor desenvolve uma tese a respeito de um veneno indetetável que contamina o organismo com o passar dos anos: o vitríolo.

Assim como a libido – o líquido sexual que o Dr. Freud reconhecera, mas nenhum laboratório fora jamais capaz de isolar –, o vitríolo é destilado pelos organismos de seres humanos que se encontram em situação de medo. A maioria das pessoas afetadas identifica seu sabor, que não é doce nem salgado, mas amargo – daí as depressões serem profundamente associadas com a palavra Amargura.

Todos os seres têm Amargura no seu organismo – em maior ou menor grau – da mesma maneira que quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas estas duas doenças só atacam quando o paciente se acha debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”.

Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente as suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes – e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a Amargura começa a causar danos irreversíveis.

O grande alvo da Amargura (ou Vitríolo, como preferia o médico do meu livro) é a vontade. As pessoas atacadas deste mal vão perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos já não conseguem sair do seu mundo – pois gastaram enormes reservas de energia construindo altas muralhas para que a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse.

Ao evitar o ataque externo, também limitam o crescimento interno. Continuam a ir para o trabalho, a ver televisão, a reclamar do trânsito e a ter filhos, mas tudo isso acontece automaticamente, sem que compreendam bem porque estão se a comportar assim – afinal de contas, tudo está sob controle.

O grande problema do envenenamento por Amargura reside no facto de que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestam mais. Depois de algum tempo, já não restava ao amargo qualquer desejo. Não tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.

Por isso, para os amargos, os heróis e os loucos são sempre fascinantes: eles não têm medo de viver ou morrer. Tanto os heróis como os loucos são indiferentes diante do perigo, e seguem adiante apesar de todos dizerem para não fazerem aquilo. O louco suicida-se, o herói oferece-se ao martírio em nome de uma causa – mas ambos morrem, e os amargos passavam muitas noites e dias comentando o absurdo e a glória dos dois tipos. É o único momento em que o amargo tem força para galgar a sua muralha de defesa e olhar um pouquinho para fora; mas logo as mãos e os pés se cansam, e ele volta para a vida diária.

O amargo crónico só nota a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tem o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebem que alguma coisa está muito errada.

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Rui Vaz
#30

O Guerreiro da Luz e a Renúncia
 

“Em qualquer atividade, é preciso saber o que se deve esperar, os meios de alcançar o objetivo, e a capacidade que temos para a tarefa proposta.

Só pode dizer que renunciou aos frutos aquele que, estando assim equipado, não sente qualquer desejo pelos resultados da conquista, e permanece absorvido no combate.

Pode-se renunciar ao fruto, mas esta renúncia não significa indiferença ao resultado”.

A estratégia é de Mahatma Gandhi. O guerreiro da luz escuta-a com respeito, e não se deixa confundir por pessoas que, incapazes de chegar a qualquer resultado, vivem a pregar a renúncia.
 

Renunciando à vingança

O guerreiro da luz tem a espada nas suas mãos. É ele quem decide o que vai fazer, e o que não fará em circunstância nenhuma. Há momentos em que a vida o conduz para uma crise: ele é forçado a separar-se de coisas que sempre amou.

Então o guerreiro reflete. Verifica se está a cumprir a vontade de Deus, ou se age por egoísmo. Caso a separação esteja mesmo no seu caminho, ele aceita sem reclamações.

Se, entretanto, tal separação for provocada pela perversidade alheia, ele é implacável na sua resposta.

O guerreiro possui a arte do golpe, e a arte do perdão. Sabe usar as duas com a mesma habilidade.
 

Renunciando à provocação

O lutador experiente aguenta insultos; conhece a força do seu punho, a habilidade dos seus golpes. Diante do oponente despreparado, ele apenas contempla, e mostra a força do seu olhar. Vence sem precisar de trazer a luta para o plano físico.

À medida que o guerreiro aprende com o seu mestre espiritual, a luz da fé também brilha nos seus olhos, e ele não precisa de provar nada para ninguém. Não importam os argumentos agressivos do adversário – dizendo que Deus é superstição, que milagres são truques, que acreditar em anjos é fugir da realidade.

Assim como o lutador, o guerreiro da luz conhece a sua imensa força; e jamais luta com quem não merece a honra do combate.
 

Renunciando ao tempo

O guerreiro da luz escuta Lao Tzu, quando ele diz que devemos desligar-nos da ideia de dias e horas, e prestar cada vez mais atenção ao minuto.

Só assim, ele consegue resolver certos problemas antes que aconteçam. Prestando atenção às pequenas coisas, consegue resguardar-se das grandes calamidades.

Mas pensar nas pequenas coisas, não significa pensar pequeno. O guerreiro sabe que um grande sonho é composto de muitas coisas diferentes, assim como a luz do sol é a soma de seus milhões de raios.
 

Renunciando ao conforto

O guerreiro da luz contempla as duas colunas que estão ao lado da porta que pretende abrir. Uma chama-se Medo, outra chama-se Desejo.

O guerreiro olha para a coluna do Medo, e ali está escrito: “Você vai entrar num mundo desconhecido e perigoso, onde tudo que aprendeu até agora não servirá para nada”.

O guerreiro olha para a coluna do Desejo, e ali está escrito: “Você vai sair de um mundo conhecido, onde estão guardadas as coisas que sempre quis, e pelas quais lutou tanto”.

O guerreiro sorri, porque não existe nada que o assuste, e nada que o prenda. Com a segurança de quem sabe o que quer, ele abre a porta.
 

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Rui Vaz
#31

Na Roda do Tempo
 

Eu tinha-me proposto publicar aqui neste espaço, uma vez por ano, textos de Carlos Castañeda, um antropólogo que marcou a minha geração através dos relatos de seus encontros com feiticeiros mexicanos. Hoje acordei a pensar: Castañeda, apesar de todos os seus críticos e de todo o seu trabalho que mais tarde me pareceu muito desordenado, não deve ser esquecido. Portanto, aqui vão, editadas, algumas das suas reflexões.

A intenção é o mais importante: para os antigos feiticeiros do México, a intenção (intento) é uma força que intervém em todos os aspetos do tempo e do espaço. Para poder utilizar e manipular esta força, precisavam de ter um comportamento impecável. A meta final de um guerreiro é poder levantar a cabeça além do sulco onde está confinado, olhar ao redor, e modificar o que deseja. Para isso, necessita disciplina e atenção total.

Nada é fácil: nada neste mundo é dado de presente: tudo precisa de ser aprendido com muito esforço. Um homem que vai em busca do conhecimento deve ter o mesmo comportamento de um soldado que vai para a guerra: bem desperto, com medo, com respeito, e com absoluta confiança. Se seguir estes requisitos, pode perder uma batalha ou outra, mas jamais irá lamentar-se do seu destino.

O medo é natural: o medo da liberdade que o conhecimento nos traz é absolutamente natural; entretanto, por mais terrível que seja o aprendizado, é pior viver sem sabedoria.

A irritação é desnecessária: irritar-se com os outros significa dar-lhes o poder de interferir nas nossas vidas. É imperativo deixar este sentimento de lado. Os atos alheios não podem de maneira nenhuma desviar-nos da nossa única alternativa na vida: o encontro com o infinito.

O fim é um aliado: quando as coisas começam a ficar confusas, o guerreiro pensa na sua morte, e imediatamente o seu espírito encontra-se de novo com ele. A morte está em toda a parte. Podemos compará-la aos faróis de um carro que nos segue por uma estrada sinuosa; às vezes, perdemo-los de vista, às vezes aparecem perto demais, às vezes as luzes apagam-se. Mas este carro imaginário jamais se detém (e um dia alcança-nos). Só a ideia da morte dá ao homem o desapego suficiente para seguir adiante, apesar de todos os percalços. Um homem que sabe que a morte se está a aproximar todos os dias, prova de tudo, mas sem ansiedade.

O presente é único: um guerreiro sabe esperar, porque sabe o que está aguardando. E enquanto espera, não deseja nada e, desta maneira, qualquer coisa que receber – por menor que seja – é uma bênção. O homem comum preocupa-se demasiado por querer aos outros, ou ser querido por eles. Um guerreiro sabe o que deseja, e isso é tudo na sua vida (e nisso concentra toda a sua energia). O homem comum gasta o presente agindo como ganhador ou perdedor e, dependendo dos resultados, transforma-se em perseguidor ou vítima. O guerreiro, por outro lado, preocupa-se apenas com os seus atos, que o levarão ao objetivo que traçou para si mesmo.

A intenção é transparente: a intenção (intento) não é um pensamento, nem um objeto, nem um desejo. É aquilo que faz um homem triunfar nos seus objetivos, e levantá-lo do chão mesmo quando ele já se entregou à derrota. A intenção é mais forte do que o homem.

A batalha é sempre a última: o espírito do guerreiro não se queixa de nada, porque não nasceu para ganhar ou perder. Nasceu para lutar, e cada batalha é a última que está a travar sobre a face da Terra. Por isso, o guerreiro deixa sempre o seu espírito livre, e quando se entrega ao combate, sabendo que sua intenção é transparente, ele ri e diverte-se.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#32

O Ato de Escrever
 

“Existem dois tipos de escritores: aqueles que fazem pensar, e aqueles que fazem sonhar” diz Brian Aldiss, que me fez sonhar por muito tempo com os seus livros de ficção científica. Pensando na frase e no meu ofício, resolvi escrever umas três colunas sobre o tema. Acho, em princípio, que todo o ser humano neste planeta tem pelo menos uma boa história para contar aos seus semelhantes. A seguir, minhas reflexões sobre alguns itens importantes no processo de criar um texto.
 

O leitor

O escritor precisa ser, sobretudo, um bom leitor. Aquele que se aferra aos livros académicos, e não lê o que os outros escrevem (e não estou a falar apenas de livros, mas de blogs, colunas de jornais, etc.) jamais irá conhecer as suas próprias qualidades e defeitos. Portanto, antes de começar qualquer coisa, procure gente que se interessa em partilhar a sua experiência através da palavra.

Não digo: “Busque outros escritores”. Digo: encontre pessoas com diferentes habilidades, porque escrever não é diferente de qualquer atividade feita com entusiasmo.

Os seus aliados não serão necessariamente aquelas pessoas que todos olham, admiram e afirmam: “Não existe ninguém melhor”. Muito pelo contrário: é gente que não tem medo de errar e, portanto, erra. Por causa disso, nem sempre o seu trabalho é reconhecido. Mas é este tipo de pessoa que transforma o mundo, e depois de muitos erros consegue acertar algo que fará a diferença completa na sua comunidade.

São pessoas que não podem ficar à espera que as coisas aconteçam, para depois poderem decidir qual a melhor maneira de as contar: elas decidem à medida que agem, mesmo sabendo que isso pode ser muito arriscado.

Conviver com estas pessoas é importante para um escritor, porque ele precisa de entender que antes de se colocar diante do papel, deve ser livre o bastante para mudar de direção à medida que o seu imaginário viaja. Quando termina uma frase, deve dizer para si mesmo: “enquanto escrevia, percorri um longo caminho. Agora termino este parágrafo com a consciência de que arrisquei bastante, e dei o melhor de mim”.

Os melhores aliados são aqueles que não pensam como os outros. Por isso, enquanto busca os seus companheiros nem sempre visíveis (porque raramente há o encontro entre o leitor e o escritor), acredite na sua intuição, e não ligue para os comentários alheios. As pessoas sempre julgam os outros tendo como modelo as suas própria limitações – e às vezes a opinião da comunidade é cheia de preconceitos e medos.

Junte-se aos que jamais disseram: “Acabou, preciso parar por aqui”. Porque assim como o inverno é seguido pela primavera, nada pode acabar: depois de atingir o seu objetivo é necessário recomeçar de novo, usando sempre tudo o que aprendeu no caminho.

Junte-se aos que cantam, contam histórias, desfrutam a vida, e têm alegria nos olhos. Porque a alegria é contagiosa, e sempre consegue impedir que as pessoas se deixem paralisar pela depressão, pela solidão, e pelas dificuldades.

E conte a sua história, nem que seja apenas para que sua família leia.
 

A caneta

Toda energia do pensamento termina por se manifestar na pena de uma caneta. Claro, podemos aqui substituir esta palavra por esferográfica, teclado de computador, lápis, mas caneta é mais romântico, não é verdade?

Voltemos ao tema: a palavra termina por condensar uma ideia.

O papel é apenas um suporte para esta ideia.

Mas a caneta permanecerá sempre consigo, e é preciso saber como utilizá-la.

São necessários períodos de inação – uma caneta que está sempre a escrever, termina por perder a consciência do que faz. Portanto, deixe-a repousar sempre que possível, e preocupe-se em viver e encontrar os seus amigos. Quando voltar ao ofício da escrita, encontrará uma caneta contente, com a força intacta.

A caneta não tem consciência: ela é um prolongamento da mão e do desejo do escritor. Serve para destruir reputações, fazer sonhar, transmitir notícias, desenhar lindas frases de amor. Portanto, seja sempre claro nas suas intenções.

A mão é o lugar onde todos os músculos do corpo, todas as intenções daquele que escreve, todo o esforço para dividir o que sente está concentrado. Não é apenas uma parte do seu braço, mas uma extensão do seu pensamento. Toque a sua caneta com o mesmo respeito que um violinista tem pelo seu instrumento.
 

A palavra

A palavra é a intenção final de qualquer pessoa que deseja dividir algo com o seu semelhante.

William Blake dizia: tudo o que escrevemos é fruto da memória ou do desconhecido. Se eu tiver uma sugestão a dar, respeite o desconhecido, e busque nele a sua fonte de inspiração. As histórias e os factos permanecem os mesmos, mas quando você abre uma porta no seu inconsciente e se deixa guiar pela inspiração, verá que a maneira de descrever o que viveu ou sonhou é sempre muito mais rica quando o seu inconsciente está guiando a caneta.

Cada palavra deixa no seu coração uma lembrança – e é a soma destas lembranças que formam as frases, os parágrafos, os livros.

As palavras são flexíveis como a ponta da pena da sua caneta, e entendem os sinais do caminho. As frases não hesitam em mudar de curso quando descobrem, quando vislumbram uma oportunidade melhor.

As palavras têm a qualidade da água: contornar rochas, adaptar-se ao leito do rio, às vezes transformar-se em lago até que a depressão esteja cheia e possa continuar o seu caminho. Porque a palavra, quando escrita com sentimento e alma, não esquece que o seu destino é o oceano de um texto, e mais cedo ou mais tarde deverá chegar até ele.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#33

Sobre a Importância do “Não”
 

“Hitler pode ter perdido a guerra no campo de batalha, mas terminou ganhando algo”, diz M. Halter. “Porque o homem do século XX criou o campo de concentração e ressuscitou a tortura, e ensinou aos semelhantes que é possível fechar os olhos para as desgraças dos outros”.

Talvez ele tenha razão: existem crianças abandonadas, civis massacrados, inocentes nos cárceres, velhos solitários, bêbados na sarjeta, loucos no poder.

Mas talvez ele não tenha nenhuma razão: existem os guerreiros da luz, que jamais aceitam o que é inaceitável.

As palavras mais importantes em todas as línguas são palavras pequenas. “Sim”, por exemplo. Amor. Deus. São palavras que saem com facilidade, e preenchem espaços vazios no nosso mundo.

Entretanto, existe uma palavra – também muito pequena – que temos dificuldade em dizer. “Não”.

E achamo-nos generosos, compreensivos, educados. Porque o “não” tem fama de maldito, egoísta, pouco espiritual. Cuidado com isso. Há momentos em que, ao dizer “sim” para os outros, você está dizendo “não” para si mesmo.

Todos os grandes homens e mulheres do mundo foram pessoas que, mais do que dizer “sim”, disseram um NÃO bem grande a tudo que não combinava com um ideal de bondade e crescimento.

Os guerreiros da luz reconhecem-se pelo olhar. Estão no mundo, fazem parte do mundo, e ao mundo foram enviados sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem certo.

Os guerreiros da luz sofrem por bobagens, preocupam-se com coisas mesquinhas, julgam-se incapazes de crescer. Os guerreiros da luz de vez em quando acreditam-se indignos de qualquer bênção ou milagre.

Os guerreiros da luz com frequência perguntam o que estão a fazer aqui. Muitas vezes acham que a sua vida não tem sentido. Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque perguntam. Porque continuam a procurar um sentido. Mas, sobretudo, porque têm capacidade de dizer “não” quando estão diante de coisas que não podem aceitar.

Muitas vezes podemos ser chamados de intolerantes, mas é importante abrir-se e lutar contra tudo e contra todas as circunstâncias, se estamos diante de uma injustiça ou de uma crueldade. Ninguém pode deixar que, no final, Hitler tenha estabelecido um padrão que pode ser repetido, porque as pessoas são incapazes de protestar. E para reforçar esta luta, é bom não esquecer as palavras de John Bunyan, autor do clássico “Pilgrim’s Progress”:

“Embora tenha passado por tudo que passei, não me arrependo dos problemas em que me meti – porque foram eles que me trouxeram onde desejei chegar. Agora, já perto da morte, tudo o que tenho é esta espada, e entrego-a para todo aquele que desejar seguir a sua peregrinação.

Levo comigo as marcas e cicatrizes dos combates – elas são testemunhas do que vivi, e recompensas do que conquistei. São estas marcas e cicatrizes queridas que vão abrir as portas do Paraíso para mim.

Houve uma época em que vivi escutando histórias de bravura. Houve uma época em que vivi apenas porque precisava viver. Mas agora vivo porque sou um guerreiro, e porque quero um dia estar na companhia d’Aquele por quem tanto lutei”.

Enfim, as cicatrizes são necessárias quando lutamos contra o Mal Absoluto, ou quando precisamos dizer “não” a todos aqueles que, às vezes com a melhor das intenções, procuram impedir a nossa caminhada em direção aos sonhos.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#34

O Ponto Acomodador
 

Num dos meus livros (“O Zahir”), procuro entender por que razão as pessoas têm tanto medo de mudar. Quando estava em pleno processo de escrita do texto, caiu nas minhas mãos uma estranha entrevista, de uma mulher que acaba de lançar um livro sobre – imagine o quê? – amor.

O jornalista pergunta se a única maneira do ser humano atingir a felicidade é encontrando a pessoa amada. A mulher diz que não:

“O amor muda, e ninguém entende isso. A ideia de que o amor leva à felicidade é uma invenção moderna, do final do século XVII. A partir daí, a gente aprende a acreditar que o amor deve durar para sempre e que o casamento é o melhor lugar para exercê-lo. No passado não havia tanto otimismo quanto à longevidade da paixão.

Romeu e Julieta não é uma história feliz, é uma tragédia. Nas últimas décadas, a expectativa quanto ao casamento como o caminho para a realização pessoal cresceu muito. A deceção e a insatisfação cresceram junto.”

Segundo as práticas mágicas dos feiticeiros no norte do México, existe sempre um evento nas nossas vidas que é responsável pelo facto de termos parado de progredir. Um trauma, uma derrota especialmente amarga, uma desilusão amorosa, até mesmo uma vitória que não entendemos bem, termina fazendo com que nos acovardemos, e não sigamos adiante. O feiticeiro, no processo de crescimento da sua conexão com os poderes ocultos, precisa primeiro livrar-se deste “ponto acomodador”, e para isso tem de rever sua vida, e descobrir onde está.

Quando era pequeno, brigava sempre e batia nos outros, porque era o mais velho da turma. Um dia levei uma surra do meu primo, e fiquei convencido que, a partir daí, nunca mais ia conseguir ganhar qualquer briga. Passei a evitar qualquer confronto físico, embora muitas vezes tenha passado por covarde, deixando-me humilhar diante de namoradas e amigos. Até que um dia, aos 22 anos, terminei por entrar sem querer numa briga, numa boate do Rio de Janeiro. Levei uma surra, mas o “ponto acomodador” foi-se embora. Hoje não brigo porque é uma péssima maneira de me expressar, e não por covardia.

Tentei durante dois anos aprender a tocar violão: progredi muito no começo, até que chegou um ponto onde não consegui avançar mais – porque descobri que outros aprendiam mais rápido que eu, senti-me medíocre, resolvi não passar vergonha, e decidi que aquilo não me interessava mais. O mesmo aconteceu com o jogo de sinuca, futebol, corrida de bicicleta: aprendia o bastante para fazer tudo razoavelmente, mas chegava um momento em que não conseguia seguir adiante.

Por quê?

Porque, diz a história que nos foi contada, num determinando momento da nossa vida “chegamos ao nosso limite”. Não devemos mais mudar. Não conseguimos mais crescer. Tanto a profissão como o amor atingiram o ponto ideal, e é melhor deixar tudo como está. Verdade? A verdade é a seguinte: podemos ir sempre mais longe. Amar mais, viver mais, arriscar mais.

A imobilidade nunca é a melhor solução. Porque tudo à nossa volta muda (inclusive o amor) e precisamos de acompanhar este ritmo.

Estou casado há 28 anos com a mesma pessoa, mas mudei de “mulher” (e ela mudou de “marido”) várias vezes durante a nossa relação. Se quiséssemos continuar como éramos em 1979, não creio que tivéssemos chegado tão longe.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#35

O Guerreiro da Luz e o Novo Ano
 

Sabendo esperar

O guerreiro da luz precisa de tempo para si mesmo. E usa esse tempo para o descanso, a contemplação, o contacto com a Alma do Mundo. Mesmo no meio de um combate, ele consegue meditar.

Em algumas ocasiões o guerreiro senta-se, relaxa, e deixa que tudo que está acontecendo ao seu redor continue a acontecer. Olha tudo à sua volta como se fosse um espectador, não tenta crescer nem diminuir – apenas entregar-se sem resistência ao movimento da vida.

Aos poucos, tudo o que parecia complicado começa a tornar-se simples. E o guerreiro alegra-se.
 

Descobrindo o objetivo

Quando se quer uma coisa, o Universo inteiro conspira a favor. O guerreiro da luz sabe disso.

Por esta razão, toma muito cuidado com os seus pensamentos. Escondidos debaixo de uma série de boas intenções estão desejos que ninguém ousa confessar a si mesmo: a vingança, a autodestruição, a culpa, o medo da vitória, a alegria macabra com a tragédia dos outros.

O Universo não julga: conspira a favor do que desejamos. Por isso, o guerreiro tem coragem de olhar para as sombras de sua alma e procura iluminá-las com a luz do perdão.

O guerreiro da luz é senhor dos seus pensamentos.
 

Entendendo a rotina

Há momentos em que o caminho do guerreiro passa por períodos de rotina. Então ele aplica um ensinamento de Nachman de Bratzlav:

“Se você não se consegue concentrar, ou se está aborrecido com o seu dia, deve repetir apenas uma simples palavra, porque isto faz bem a alma. Não diga nada mais, apenas repita esta palavra sem parar, incontáveis vezes. Ela terminará por perder seu sentido, e depois ganhará um significado novo. Deus abrirá as portas, e você terminará usando esta simples palavra para dizer tudo o que queria”.

Quando é forçado a fazer a mesma tarefa várias vezes, o guerreiro utiliza esta tática, e transforma o seu trabalho em oração.
 

Celebrando o ano que termina

O guerreiro viveu todos os dias do ano que passou, e mesmo que tenha perdido grandes batalhas, sobreviveu e está aqui. Isso é uma vitória. Esta vitória custou momentos difíceis, noites de dúvidas, intermináveis dias de espera. Desde os tempos antigos, celebrar um triunfo faz parte do próprio ritual da vida.

A comemoração é um rito de passagem.

Os companheiros olham a alegria do guerreiro da luz, e pensam: “Por que faz isto? Pode dececionar-se no seu próximo combate. Pode atrair a fúria do inimigo”.

Mas o guerreiro sabe o motivo do seu gesto. Ele beneficia do melhor presente que a vitória é capaz de trazer: confiança.

O guerreiro celebra o ano que passou, para ter mais forças nas batalhas de amanhã.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#36

Na Margem do Rio Adour
 

“Quando tiro os óculos, ainda posso ver o caminho. Não posso ver os detalhes, mas posso ver o caminho”. Diz minha mulher, com miopia de 6,5 graus, enquanto andamos por um campo de milho, nestas férias europeias.

Digo que a mesma coisa acontece comigo: embora não seja míope, às vezes não posso ver os detalhes, mas sempre procuro manter os olhos fixos nas minhas escolhas.

Terminamos num rio no meio de lugar nenhum, perto do vilarejo de Arcizac-Adour. E de repente, lembro-me que fiz uma promessa, e ainda não cumpri. Neste rio estávamos os dois sentados, três anos atrás, quando vimos uma linda mulher, com botas impermeáveis até os joelhos, caminhando pelo seu leito com um saco nos ombros. Ao ver-nos, aproximou-se:

– Conheço Jacqueline (uma amiga). Pedi que ela nos apresentasse, e ela respondeu-me: você irá encontrá-lo quando menos esperar. Meu nome é Isabelle Labaune.

Explicou que estava ali a limpar o rio de eventuais detritos (garrafas de plástico e latas de cerveja, que eram levadas pela corrente), mas que a sua verdadeira paixão eram os cavalos. Naquela tarde fomos visitar a sua coudelaria.

Isabelle tinha uns doze animais, e fazia tudo absolutamente sozinha – alimentá-los, manter o lugar limpo, arrumar os estábulos, consertar as telhas, enfim tudo aquilo que deixaria qualquer pessoa alucinada com tanto trabalho.

– Criei uma associação para as pessoas com problemas mentais de nascença. Tenho a certeza absoluta que a equitação permite que elas se sintam amadas, integradas na sociedade.

Sempre que vinha passar férias na região, encontrava-me com Isabelle. Chegavam alguns mini-autocarros com jovens com Síndrome de Down, que montavam nos magníficos cavalos, e passeavam pelos rios, florestas e parques. Nunca houve um acidente sequer. Os pais ficavam com lágrimas nos olhos, e Isabelle com um sorriso nos lábios. Tinha um imenso orgulho do que fazia: acordava às cinco da manhã, trabalhava o dia inteiro, e ia dormir cedo, exausta.

Era uma mulher jovem e muito atraente. Mas não tinha namorado:

– Todo o homem que aparece em minha vida quer que eu seja dona-de-casa. Mas eu tenho um sonho. Sofro por estar sozinha, mas sofreria mais se abandonasse o sentido da minha vida.

A situação mudou logo no início de 2006. Certa tarde, quando fui visitá-la, disse-me que estava apaixonada. E que o namorado aceitava o seu ritmo de vida e estava disposto a ajudá-la no que fosse necessário.

Alguns dias depois fui viajar para o Brasil. Penso que em outubro recebi uma mensagem sua no meu telemóvel: gostaria de me ver – mas eu estava longe e não dei muita importância, porque nas cidades do interior nada se passa com muita urgência. Quando retornei aos Pirenéus, já em dezembro, fui almoçar com Jacqueline. Foi aí que soube que Isabelle havia morrido de um cancro fulminante.

Naquela noite, acendi uma fogueira no meu jardim. Fiquei sozinho, olhando as chamas, pensando numa mulher que só havia feito o bem em sua vida, e que Deus a tinha levado tão cedo. Não chorei, mas senti um profundo amor no ar, como se ela estivesse presente em tudo à minha volta. No dia seguinte, recebi o telefonema do namorado, que me pediu que escrevesse alguma coisa sobre ela: havia partido, e ninguém jamais conhecera o seu trabalho.

Prometi que faria isso. Mas só hoje, quando passamos diante do mesmo rio, e nos sentamos no mesmo lugar, foi que me lembrei que tinha assumido o compromisso, e agora estou a cumpri-lo. Das muitas pessoas que conheci em minha vida, uma das mais próximas da santidade é Isabelle Labaune.
 

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#37

Tudo se Move
 

Tudo se move. E tudo se move com um ritmo. E tudo o que se move com um ritmo provoca um som; isso está a acontecer aqui e em qualquer lugar do mundo neste momento. Os nossos ancestrais notaram a mesma coisa, quando procuravam fugir do frio em suas cavernas: as coisas moviam-se e faziam barulho.

Os primeiros seres humanos talvez tivessem olhado isso com espanto, e logo em seguida com devoção: entenderam que esta era a maneira de uma Entidade Superior se comunicar com eles. Passaram a imitar os ruídos e os movimentos à sua volta, na esperança de comunicarem também com esta Entidade: a dança e a música acabavam de nascer.

Quando dançamos, somos livres. Melhor dizendo, o nosso espírito pode viajar pelo universo, enquanto o corpo segue um ritmo que não faz parte da rotina. Assim, podemos rir dos nossos grandes ou pequenos sofrimentos, e entregarmo-nos a uma experiência nova sem medo. Enquanto a oração e a meditação nos levam até ao sagrado através do silêncio e do mergulho interior, na dança celebramos juntamente com os outros uma espécie de transe coletivo.

Pode-se escrever o que se quiser sobre a dança, mas de nada vale: é preciso dançar para saber do que se está a falar. Dançar até à exaustão, como se fossemos alpinistas subindo uma montanha sagrada. Dançar até que, por causa da respiração ofegante, o nosso organismo possa receber oxigénio de uma maneira a que não está acostumado, e isso termina por fazer com que percamos a nossa identidade, a nossa relação com o espaço e o tempo.

Claro que podemos dançar sozinhos, se isso nos ajuda a vencer a timidez. Mas sempre que possível, é melhor dançar em grupo, porque um estimula o outro, e acaba por se criar um espaço mágico, com todos conectados na mesma energia.

Para dançar, não é necessário aprender em academias; basta deixar que o corpo ensine – porque dançamos desde a noite dos tempos, e não esquecemos isso. Quando eu era adolescente, ficava com inveja dos grandes “bailarinos” da minha turma da esquina, e fingia que tinha outras coisas para fazer durante as festas – como ficar conversando, por exemplo. Mas, na verdade, eu tinha pavor do ridículo. Até que um dia uma menina, chamada Márcia, disse-me na frente de todos:

– Venha.

Eu disse que não gostava; ela insistiu. Todos do grupo ficaram a olhar, e por que eu estava apaixonado (o amor é capaz de tantas coisas!) não pude recusar mais. Fiz um papel ridículo, não sabia seguir os passos, mas Márcia não parou; continuou a dançar, como se eu fosse um Rudolf Nureyev.

– Esqueça os outros e preste atenção ao baixo – sussurrou ao meu ouvido. – Procure seguir o seu ritmo.

Naquele momento, entendi que nem sempre é necessário aprender as coisas mais importantes; elas já fazem parte da nossa natureza. Na juventude, a dança é um rito de passagem fundamental: experimentamos pela primeira vez um estado de graça, um êxtase profundo, mesmo que para os menos avisados tudo não passe de um grupo de rapazes e moças a divertir-se numa festa.

Quando ficamos adultos, e quando envelhecemos, precisamos de continuar a dançar. O ritmo muda, mas a música é parte da vida, e a dança é a consequência de deixarmos que este ritmo penetre em nós.

Continuo a dançar sempre que posso. Com a dança, o mundo espiritual e o mundo real conseguem conviver sem conflitos. Como disse alguém, os bailarinos clássicos ficam na ponta dos pés porque estão ao mesmo tempo tocando a terra e alcançando os céus.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#38

Fragmentos de um Diário Inexistente
 

O sermão de um padre peruano

No meu livro “O Alquimista”, o jovem pastor Santiago encontra-se de repente com um velho numa praça. Está em busca de um tesouro, mas não sabe como chegar até ele. O velho começa a puxar conversa:

– Quantas ovelhas você tem?

– O suficiente – responde Santiago.

– Então estamos diante de um problema. Não posso ajudá-lo enquanto você achar que tem ovelhas suficientes.

* * *
Baseado neste trecho, o padre peruano Clemente Sobrado faz uma interessante reflexão, que transcrevo a seguir:

Um dos maiores problemas que todos nós arrastamos através da vida é querer acreditar que temos “ovelhas suficientes”. Estamos cercados de certezas, e ninguém deseja que alguém apareça propondo alguma coisa nova. Quem dera que pelo menos pudéssemos suspeitar que não temos tudo, nem somos tudo o que podíamos ser!

É possível que todo mundo esteja diante de um problema gravíssimo; e embora tenhamos a oportunidade de ajudar-nos uns aos outros, a verdade é que pouca gente se deixa ajudar.

Por quê? Porque acreditam que já têm “ovelhas suficientes”. Já sabem tudo, têm sempre razão, estão confortáveis nas suas existências.

Quase todos nós somos assim: temos muitas coisas e poucas aspirações. Temos muitas ideias já resolvidas, e não queremos renunciar a elas. O nosso esquema de vida já está bem organizado, e não precisamos de ninguém que venha provocar uma mudança.

Já rezamos o suficiente, fizemos caridade, lemos as vidas de santos, fomos à missa, comungamos. Um amigo meu disse uma vez:

– Não sei por que o venho procurar, padre. Eu já sou um bom cristão.

Naquele dia não consegui escutar isso sem dar uma resposta:

– Então não me venha procurar, porque tenho muita gente à minha espera, que estão cheias de dúvidas. Mas quer saber uma coisa: Você não é mau o suficiente para ser mau, nem bom o suficiente para ser bom, nem santo o bastante para fazer milagres.

É apenas um cristão satisfeito com o que conseguiu. E todos aqueles que estão satisfeitos, na verdade renunciaram a melhorar sempre. Conversaremos outro dia, de acordo?”

Desde então, quando conversamos ao telefone, ele começa dizendo: “Aqui está a falar uma pessoa que ainda não cresceu tudo o que podia.
 

Senhor, dá-nos sempre um coração insatisfeito

Dá-nos um coração onde se possam manifestar as perguntas que nunca queremos fazer.

Retira-nos do nosso conformismo.

Que possamos sentir o gosto pelo que temos, mas que entendamos que isso não é tudo.

Que possamos entender que somos pessoas boas.

Mas sobretudo, que nos perguntemos sempre onde podemos melhorar.

Porque, se perguntamos, é bem possível que Tu venhas e nos abras horizontes que antes não conseguíamos enxergar.
 

Hakone, Japão

Consigo que meu editor, Masao Masuda, finalmente me convide para a tradicional cerimónia do chá. Vamos para uma montanha perto de Hakone, entramos num pequeno quarto, e a irmã dele, vestida ritualmente em quimono, serve-nos chá.

Só isso. Entretanto, tudo é feito com tanta seriedade e protocolo, que uma prática cotidiana transforma-se num momento de comunhão com o Universo.

O mestre do chá, Okakusa Kasuko, explica o que acontece: “A cerimónia é a adoração do belo. Todo o seu esforço concentra-se na tentativa de atingir o Perfeito através dos gestos imperfeitos da vida cotidiana. Toda a sua beleza consiste em respeitar as coisas simples que fazemos, pois elas podem transportar-nos até Deus”.
 

Copacabana, Rio de Janeiro

Estou andando pelo passeio, e escuto uma moça a dizer para a outra, de maneira convicta: “Eu programei a minha vida da seguinte maneira...”

Fiquei a pensar: será que ela conta com as coisas que aparecem justamente quando não estamos à espera? Pensou que Deus talvez tenha um plano diferente, e muito mais interessante? Levou a sério a hipótese de que – ao incluir outras pessoas na sua programação – esteja a interferir em ideias e projetos distintos?

Não sei se a frase que escutei era fruto da inexperiência ou do delírio total.
 

Melbourne, Austrália

Piso no palco com a apreensão de sempre. Um escritor local apresenta-me e começa a fazer-me perguntas. Antes que eu possa terminar um raciocínio, ele interrompe-me e faz uma nova pergunta. Quando respondo, comenta algo como “esta resposta não foi bem clara”. Cinco minutos depois, nota-se um mal-estar na plateia. Lembro-me de Confúcio, e faço a única coisa possível:

– Você gosta do que eu escrevo? – pergunto.

– Isso não vem ao caso – responde. – Sou eu a entrevistá-lo, e não o contrário.

– Vem ao caso, sim. Você não me deixa concluir uma ideia. Confúcio disse: “Sempre que possível, seja claro”. Vamos seguir este conselho e deixar as coisas claras: você gosta do que escrevo?

– Não, não gosto. Só li dois livros, e detestei.

– OK, então podemos continuar.

Os campos agora estavam definidos. A plateia relaxa, o ambiente enche-se de eletricidade, a entrevista vira um verdadeiro debate, e todos – inclusive o escritor – ficam satisfeitos com o resultado.
 

No avião de Melbourne para Los Angeles

Recorto da revista de bordo o trecho atribuído a Loren Eisley:

“A viagem é difícil, longa, às vezes impossível. Mesmo assim, conheço poucas pessoas que se deixaram deter por estas dificuldades. Entramos no mundo sem saber ao certo o que aconteceu no passado, quais as consequências que isto nos trouxe, e o que nos pode reservar o futuro.

Procuraremos viajar o mais longe que pudermos. Mas, olhando a paisagem à nossa volta, sabemos que não será possível conhecer e aprender tudo.

Então, resta-nos lembrar tudo sobre a nossa viagem, para que possamos contar histórias. Aos nossos filhos e netos, vamos relatar as maravilhas que vimos e os perigos que corremos. Eles também nascerão e morrerão, contarão as suas histórias aos seus descendentes, e a caravana ainda não terá chegado ao seu destino”.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#39

O Bom Combate
 

“Combati o bom combate, e mantive a fé”, diz Paulo numa das suas epístolas. E seria bom relembrar o tema, quando um novo ano se estende diante de nós.

O homem nunca pode parar de sonhar. O sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, na nossa existência, vemos os nossos sonhos desfeitos e os nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão a nossa alma morre e Ágape não penetra nela. Ágape é o amor universal, aquele que é maior e mais importante do que “gostar” de alguém. No seu famoso sermão sobre os sonhos, Martin Luther King lembra o facto de que Jesus nos pediu para amar os nossos inimigos, e não para gostar deles. Este amor maior é o que nos dá impulso para continuar lutando apesar de tudo, manter a fé, a alegria, e combater o Bom Combate.

O Bom Combate é aquele que é travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heroicas, quando os apóstolos saíam pelo mundo a pregar o evangelho, ou no tempo dos cavaleiros andantes, isto era mais fácil: havia muita terra por onde caminhar, e muita coisa para fazer. Hoje em dia, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate foi transportado dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome dos nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor – na juventude – nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, terminamos por aprender a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, voltamo-nos contra nós e combatemos a nós mesmos, e passamos a ser o nosso pior inimigo. Dizemos que os nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto do nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos os nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos a matando os nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida tinham sempre tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, não davam conta do pouco trabalho que precisavam de realizar, e queixavam-se constantemente de que o dia era curto demais. Na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.

O segundo sintoma da morte dos nossos sonhos são as nossas certezas. Porque não queremos olhar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a julgar-nos sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-a-dia e ouvimos o ruído das lanças que se quebram, o cheiro do suor e da pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para estes não importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o Bom Combate.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos “maduros”, deixamos de lado as “fantasias da infância”, e conseguimos a nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém da nossa idade diz que quer ainda isto ou aquilo da vida. Mas no íntimo do nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta pelos nossos sonhos, a combater o Bom Combate.

Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos. Começamos a tornar-nos cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a deceção e a derrota – passa a ser o único legado da nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livrasse das nossas certezas, das nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.

Portanto, para evitar isso, vamos encarar a vida com a reverência do mistério e a alegria da aventura.

(Guerreiro da Luz Online)

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Rui Vaz
#40

Vinte Anos Depois
 

Na próxima semana comemora-se (25 de julho) o dia de Santiago de Compostela. No ano passado, refiz a peregrinação de carro juntamente com a minha mulher, para celebrar os meus 20 anos do Caminho.

Lembro-me de uma tarde, sentado num jardim em Leon, olhando o rio que corre. Ao meu lado, Christina – minha mulher – está a ler um livro. A primavera começa na Europa, já podemos colocar os agasalhos na mala. Andamos de carro todos estes dias, passando em alguns lugares que marcaram as nossas vidas (Christina fez o Caminho de Santiago em 1990). Apesar de viajarmos sem pressa, cobrimos 500 km, em menos de uma semana.

Agua mineral. Café. Pessoas que conversam, pessoas que caminham. Pessoas que também tomam o seu café e a sua água mineral.

Então volto vinte anos no tempo, uma tarde de julho ou agosto de 1986, um café, uma água mineral, pessoas conversando e caminhando – só que desta vez o cenário são as planícies que se estendem logo depois de Castrojeriz. O meu aniversário aproxima-se, já saí de Sant Jean Pied-de-Port há algum tempo, e estou pouco além da metade do caminho que conduz a Santiago de Compostela.

Velocidade de caminhada: 20 km por dia.

Olho para diante, a paisagem monótona, o guia que também toma o seu café num bar que parece ter surgido de lugar nenhum. Olho para trás, a mesma paisagem monótona, com a única diferença que a poeira do chão tem as marcas das solas de meus sapatos – mas isso é temporário, o vento as apagará antes que chegue a noite.

Tudo me parece irreal. O que estou a fazer aqui? Esta pergunta continua a acompanhar-me, embora várias semanas já se tenham passado.

Estou a procurar uma espada. Estou a cumprir um ritual de RAM, uma pequena ordem dentro da Igreja Católica, sem segredos ou mistérios além da tentativa de compreender a linguagem simbólica do mundo. Estou a pensar que fui enganado, que a busca espiritual não passa de uma coisa sem sentido ou lógica, e que seria melhor estar no Brasil, cuidando do que eu sempre cuidava.

Estou a duvidar da minha sinceridade nesta busca, porque dá muito trabalho procurar um Deus que nunca se mostra, rezar nas horas certas, percorrer caminhos estranhos, ter disciplina, aceitar ordens que me parecem absurdas.

É isso: duvido da minha sinceridade. Por todos estes dias, Petrus tem dito que o caminho é de todos, das pessoas comuns, o que me deixa muito dececionado. Eu pensava que todo este esforço me fosse dar um lugar de destaque entre os poucos eleitos que se aproximam dos grandes arquétipos do universo. Eu pensava que ia finalmente descobrir que são verdade todas as histórias a respeito de governos secretos de sábios no Tibete, de porções mágicas capazes de provocar amor onde não existe atração, de rituais onde de repente as portas do Paraíso se abrem.

Mas é exatamente o contrário que Petrus me diz: não existem eleitos. Todos são escolhidos, se ao invés de se perguntarem “o que estou a fazer aqui”, resolverem fazer qualquer coisa que desperte o entusiasmo no coração. É no trabalho com entusiasmo que está a porta do paraíso, o amor que transforma, a escolha que nos leva até Deus.

É esse entusiasmo que nos conecta com o Espírito Santo, e não as centenas, milhares de leituras dos textos clássicos. É a vontade de acreditar que a vida é um milagre que permite que os milagres aconteçam, e não os chamados “rituais secretos” ou “ordens iniciáticas”. Enfim, é a decisão do homem de cumprir o seu destino que o faz ser realmente um homem – e não as teorias que ele desenvolve em torno do mistério da existência.

E aqui estou eu. Um pouco além do meio do caminho que me leva a Santiago de Compostela. Se as coisas são tão simples como ele diz, por quê esta aventura inútil?

Nesta tarde em Leon, no longínquo ano de 1986, eu ainda não sei que daqui a seis ou sete meses irei escrever um livro sobre esta minha experiência, que já caminha pela minha alma o pastor Santiago em busca de um tesouro, que uma mulher chamada Veronika preparara-se para ingerir algumas pílulas e tentar cometer suicídio, que Pilar chegará diante do rio Piedra e escreverá, chorando, o seu diário.

Tudo que sei é que estou a fazer este absurdo e monótono Caminho. Não existe fax, telemóvel, os refúgios são poucos, o meu guia parece irritado todo o tempo, e não tenho forma de saber o que está a acontecer no Brasil.

Tudo o que sei neste momento é que estou tenso, nervoso, incapaz de conversar com Petrus, porque acabo de me dar conta de que não posso mais voltar a fazer o que vinha fazendo – mesmo que isso signifique abrir mão de um dinheiro razoável no final do mês, de uma certa estabilidade emocional, de um trabalho que já conheço e do qual domino algumas técnicas. Preciso de mudar, seguir em direção ao meu sonho, um sonho que me parece infantil, ridículo, impossível de ser realizado: tornar-me o escritor que secretamente sempre desejei ser, mas que não tenho coragem de assumir.

Petrus termina de beber o seu café, a sua água mineral, pede-me que pague a despesa e que continuemos logo a andar, já que ainda faltam alguns quilómetros até à próxima cidade. As pessoas continuam a passar e conversar, olhando com o canto dos olhos os dois peregrinos de meia-idade, pensando como há gente estranha neste mundo, sempre pronta a tentar reviver um passado que já está morto. A temperatura deve estar em torno de 27º C, porque é o final da tarde, e eu pergunto-me silenciosamente, pela milésima vez, se não tomei a decisão errada.

Eu queria mudar? Acho que não, mas no final de contas este caminho está a transformar-me. Eu queria conhecer os mistérios? Acho que sim, mas o caminho está a ensinar-me que não existem mistérios, que – como dizia Jesus Cristo – não há nada oculto que não tenha sido revelado. Enfim, tudo está a acontecer exatamente ao contrário do que eu esperava.

Levantamo-nos e começamos a andar em silêncio. Estou imerso nos meus pensamentos, na minha insegurança, e Petrus deve estar a pensar – imagino eu – no seu trabalho em Milão. Está aqui porque de alguma maneira foi obrigado pela Tradição, mas possivelmente espera que esta caminhada termine logo, para que possa voltar a fazer aquilo de que gosta.

Andamos por quase todo o resto da tarde sem conversar. Estamos isolados na nossa convivência forçada. Santiago de Compostela está adiante, e não posso imaginar que este caminho me conduz não apenas a esta cidade, mas a muitas outras cidades do mundo. Nem eu nem Petrus sabemos que nesta tarde, na planície de Leon, eu estou também a caminhar para Milão, sua cidade, aonde chegarei quase dez anos depois, com um livro chamado “O Alquimista”. Eu estou a caminhar para o meu destino, tantas vezes sonhado e outras tantas vezes negado.

Em poucos dias chegarei exatamente ao lugar onde hoje, vinte anos depois, escrevo estas linhas. Eu estou a caminhar em direção ao que sempre desejei, e não tenho fé, nem esperança, que a minha vida se transforme.

Mas continuo em frente. Num futuro longínquo, num dos bares onde passarei daqui a alguns dias, já está sentada a minha mulher a ler um livro, e ali estou eu, a digitar este texto num computador, que minutos depois o envia por internet até a o jornal onde será publicado.

Estou a caminhar em direção a este futuro – nesta tarde de agosto de 1986.

(Guerreiro da Luz Online)

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